Frente pela Soberania

Análises Políticas, Econômicas e Sociais

Aa aA

Economia para Indignados

Foto

Economia para Indignados

Bolsas mundiais desabam a partir das criptomoedas

J. Carlos de Assis, economista, RJ

16/07/2018

Elas vieram do pó, e ao pó voltarão. Este é o destino das criptomoedas, como o bitcoin, que geraram centenas de filhotes pelo mundo em busca do que Marx definia como desejo último do Capital, a geração de moeda a partir da moeda, sem passar pelo sistema produtivo. O maior entendido nessa história no Brasil é Luiz Gonzaga Belluzzo, autoridade incontestável em Marx e Keynes. Seu olhar arguto, como o meu, vê o desabamento iminente dos mercados. Entretanto, discordamos do tempo. Eu acho que é agora. Ele, que ainda demora um pouco.

Entretanto, a virtual incineração das bitcoins é indício claro de que o momento em que o Capital especulativo se apresentará ao Juízo Final já chegou. Todos os mercados, contaminados pela doença da especulação desenfreada em derivativos, serão arrastados para a quebra. Os especuladores em bitcoins sem imposto e nos derivativos das bolsas perderão fortunas no processo. Se o governo norte-americano não intervir, e espero que dessa vez não intervenha, como em 2008, o Capital financeiro será purgado de seus pecados, como quer o Papa.

É de Lênin a observação de que, nos processos sociais e políticos, a corrente arrebenta sempre pelo elo mais fraco. Não há nada mais fraco, no capitalismo, do que uma bitcoin. Ela não se ancora em nada. É ficção pura. Todas as moedas normais são fictícias, mas gozam do privilégio de pagar impostos – como ensinou Abba Lerner, no livro seminal “Finanças Funcionais”, apresentado ao Brasil num livro que traduzi de Randall Wray, “Understanding Modern Money”, ou, na tradução, “Trabalho e Moeda Hoje”, Editora da UFRJ.

O ideal da bitcoin é não pagar imposto. O sujeito vive no meio de uma coletividade, usa suas ruas, seu sistema de água e esgoto, sua infraestrutura de comunicação, seus aeroportos e portos, e não paga por esses serviços nenhum imposto. Nada paga pelas benesses de uma vida em comum, superando o que Marx chamava de imbecilidade da vida isolada no campo, em seu tempo. Nega-se a arcar com os ônus que recaem justificadamente sobre os ombros dos cidadãos e cidadãs comuns, já que foge sobretudo do imposto de renda.

O espírito por trás dessa canalhice foi trazido para o Brasil por um líder empresarial fake, Paulo Skaf, associado a um líder trabalhista ativo que não escapou de ser enganado pelo empresário, Paulinho da Força. É simbolizado pelo Pato. O Pato da Fiesp tornou-se um avatar da busca de isenção de impostos, por meios lícitos ou ilícitos. Desgraçadamente, quando analisado sob outro prisma, tem alguma razão de ser: o dinheiro que pagamos de impostos está sendo sabotado por uma liderança política ladra e incompetente.

Entretanto, em lugar de deixar de pagar impostos, o correto é lutar por sua aplicação correta e justa em benefício da coletividade. E a primeira coisa a fazer é promover verdadeira justiça tributária, em lugar de isentar os ricos dos impostos, sobrecarregando os pobres como acontece no Brasil. Afinal, é o trabalhador, por meio da mais valia, o produtor de riqueza em última instância no capitalismo; e é também ele, através da mais-valia apropriada socialmente, a mais valia social, ou imposto, que paga a integralidade dos impostos sob o domínio do Capital. O bitcoin, conforme escrevemos no site frentepelasoberania.com.br, é a sonegação institucionalizada de impostos.

Voltemos aos mercados. Como se trata de uma pirâmide, moedas virtuais como o bitcoin se sustentam exclusivamente pela demanda, primeiro dos muito espertos – quem constrói as pirâmides – e depois pelos otários – pagam por elas. Como não existe a autoridade do Estado por trás dessas moedas, se a demanda cai, por algum efeito de desconfiança em seu mercado, não há Estado para bancar o prejuízo em nome da coletividade, como nas bolsas reguladas. O fato, porém, é que, no jogo especulativo desenfreado, arbitrado pelo Capital, também as bolsas construíram bitcoins, na medida em que também os derivativos – 700 trilhões de dólares – são moedas virtuais.

Tudo isso começou a desabar, na medida em que detentores de bitcoins resolveram pular fora de suas aplicações. Naturalmente, tentando perder pouco, saem de suas posições ativas e correm para ativos como o dólar ou outras moedas ancoradas na autoridade do Estado. Contudo, no limite, não é possível aos Estados bancar um jogo de 700 trilhões de dólares, como fez em 2008. Dessa vez há um meio-louco na Casa Branca, oriundo do sistema produtivo, e que não gosta dos mercados especulativos. De qualquer forma, mesmo que queira proteger os mercados, especulativos ou não, Donald Trump não terá dinheiro para isso. O que veio do pó ao pó voltará!

Download deste Artigo

Endereço desta página:
http://www.frentepelasoberania.com.br/economia-para-indignados/bolsas-mundiais-desabam-a-partir-das-criptomoedas/

Compartilhar
Leia também:
×