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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

Crescimento aclamado apenas pelos idiotas

J. Carlos de Assis, economista, RJ

02/03/2018

É absolutamente falso que a economia brasileira está se recuperando. A taxa de crescimento do ano passado, de 1% depois de uma contração por dois anos seguidos de 7,6%, refletiu fundamentalmente o comportamento excepcional da agricultura, que não se repetirá este ano. É bom entender que crescimento exige não apenas a repetição de um nível de produção dado. Requer expansão num nível maior. Todos os elementos do PIB estão ou estagnados ou continuam em contração, como o investimento.

Se o idiota que está prevendo crescimento de 3,5% da economia para este ano estiver certo, todos os livros de macroeconomia terão de ser reescritos. A macroeconomia keynesiana surgiu justamente para que se entendesse o papel do setor público na retomada da economia. Até então, no início dos anos 30, o comportamento dos governos diante de recessões e depressões era totalmente passivo. Com isso, a crise de 29 se generalizou na Grande Depressão dos anos 30, até as fortes intervenções governamentais nos EUA e na Alemanha.

O papel ativo dos governos no enfrentamento da recessão ou depressão consiste em aumentar vigorosamente os gastos públicos deficitários para estimular os gastos e os investimentos privados. Isso teria efeito positivo no emprego e na receita pública, realimentando o circuito da demanda, do investimento, do emprego e da receita. O caráter estratégico do gasto público é que apenas ele pode ser aumentado sem prévia preocupação com a demanda já que se trata de aumento de serviços públicos e de infraestrutura.

Agora considere-se a projeção de 3,5% de crescimento este ano feita por alguns “analistas” do mercado e reproduzidas em discursos no Congresso. De onde vem a demanda? Do setor público não, porque os investimentos estão bloqueados em nível federal pela emenda 95 e, nos níveis estaduais e municipais, por restrição de endividamento. Do investimento? Impossível. Exceto em certos setores específicos, primeiro vem a demanda e depois o investimento privado. Não é o caso.

Alguma coisa pode vir do superávit comercial, mas não de forma significativa. Quanto à agricultura, para ter efeito de crescimento do PIB, teria de expandir além do recorde do ano passado, o que está descartado. Insista-se: de onde virá o crescimento, se a política do Governo, deliberadamente, é de reduzir gastos e investimentos públicos, contrariamente ao papel clássico dos governos de expandi-los para contrabalançar a recessão? A resposta é: da demagogia. Ao longo de todo este ano ouviremos que a economia se recuperou a fim de que isso tenha algum efeito sobre as eleições de outubro. Quando o IBGE soltar os dados será tarde.

A política de Meirelles vai além da omissão governamental diante da crise. Na verdade, o Governo Temer tem tido um papel ativo em sua expansão como antes dos anos 30 nos EUA. O único gasto público que aumenta nessa administração é o gasto com juros; e gasto com juros não promove demanda efetiva porque beneficia apenas os muito ricos, e os muito ricos tem consumo saturado. Numa situação dessas, estamos, a rigor, sob o império do liberalismo anterior a Keynes, o império de Hoover, que quase destruiu os Estados Unidos nos anos 30.

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