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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

Desastre no Brasil, há sinais de esperança no mundo?

Roberto Requião, senador, PR

10/04/2018

O que está acontecendo no Brasil com a prisão ilegal de Lula é a coisa mais grave desde 1964. Todos já sabemos disso e temos que redobrar nossos esforços para salvar Lula e restabelecer a democracia.

Mas eu quero falar neste artigo de esperança para ajudar a levantar nossos ânimos tão abalados.

Nesses dias de justificado desencanto com a situação econômica e política brasileira, vislumbro sinais de esperança no horizonte mundial que, cedo ou tarde, poderão bater às nossas portas abrindo as possiblidades de um destino novo, fraterno e solidário para o país. Não subestimo o peso dos fatores negativos que nos tem atormentado nos últimos anos. Nem as dificuldades objetivas para sua superação. Também não me deixo levar pelo dito ingênuo de que depois da tempestade sempre vem a bonança. Não. Sinais existem e são reais.

Podemos considerar a Igreja Católica como uma das maiores autoridades morais do mundo. Embora sempre tenha havido, entre seus clérigos, posições conservadoras e progressistas no plano das questões terrenas, em ocasiões específicas surge uma linha doutrinária no mais alto nível de sua hierarquia uniformizando no mesmo posicionamento questões morais e religiosas. É o que aconteceu com João XXIII, no Concílio Vaticano II. E é o que acontece agora, com o Papa Francisco.

Não há nada que impõe maior sofrimento ao mundo nos tempos correntes que a ditadura do capital financeiro globalizado. As dívidas públicas constituídas ao longo do tempo por políticas monetárias e financeiras neoliberais estrangulam os povos, e especialmente os mais pobres, aos quais é negada uma política de desenvolvimento. Há uma verdadeira conspiração ideológica no sentido de manter os povos subjugados a uma doutrina de economia política que esgota suas energias e seu sangue.

O Papa Francisco tornou-se um porta-voz dos que não tem voz nessa matéria. Com simplicidade põe o dedo na ferida aberta pela especulação financeira desenfreada. Em suas palavras, ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e a Mamon. Mamon é o dinheiro. Pode-se argumentar, tecnicamente, que o dinheiro cumpre uma função social quando destinado especificamente a facilitar as trocas numa sociedade. Entretanto, dinheiro que se transforma em mais dinheiro, sem intermediação do setor produtivo, é um meio de expropriação.

Não o seria, caso o sistema financeiro fosse regulado e disciplinado. As taxas de juros seriam mantidas em níveis moderados. Isso, aliás, aconteceu nos primórdios do capitalismo, quando o lucro industrial era muito superior ao juro. Agora estamos numa situação inversa. Dinheiro especulativo rende mais que o lucro produtivo. Os capitalistas descontam a diferença explorando ao máximo a classe trabalhadora. Esse sistema é insustentável a longo prazo, porque esmaga a capacidade de consumo do povo.

O Papa Francisco não é economista. Fala com o coração. Entretanto, não há economista de boa fé no mundo que venha a se contrapor a ele. O que diz é rigorosamente certo. E é um baluarte para estimular outras pessoas, inclusive economistas, a assumir com coragem a bandeira contra Mamon. Isso certamente está perturbando a tranquilidade dos banqueiros, acostumados a comprar todo mundo, inclusive a grande mídia, para suas posições socialmente regressivas.

Entretanto, este não é o único sinal externo positivo que devemos saudar. De onde menos se esperava, surgiu a mais vigorosa defesa de políticas nacionalistas, antes relegadas a segunda plano no meio do turbilhão ideológico da globalização. Donald Trump, com todos os defeitos que tem, está ensinando aos países em desenvolvimento, contra as teses do Forum Social Mundial, que é fundamental defender a nação e seus habitantes por força da aproximação de governantes e governados.

Ainda mais surpreendente, vem do próprio Trump, um dos mais controversos dirigentes políticos do mundo, com posições internas extremamente retrógradas, outro sinal alvissareiro dos tempos, este no plano político global, de aceitar negociações de alto nível com o governo coreano para debater o fim das sanções ao país e obter dele alguma garantia de cessar o desenvolvimento de seu programa nuclear. Fora do círculo interno da Casa Branca, e de forma totalmente surpreendente para a imprensa, as negociações foram publicamente anunciadas à margem dos geopolíticos e militaristas do sistema político norte-americano, liderados pelos democratas.

Nem tudo está perdido, portanto. No plano interno, é possível que, sem as pressões globalizantes do governo norte-americano, nossos economistas aprendam com o retrógrado Trump no campo moral a defender o próprio país e não uma abstração econômica qualquer, a exemplo de equilíbrio orçamentário em plena recessão para supostamente atrair capital externo. Acredito firmemente que isso possa acontecer tendo em vista o virtual esgotamento das políticas regressivas a que fomos trazidos até aqui.

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