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Economia para Indignados

Economia para Indignados

Marcha-a-ré

Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo

12/03/2018

Depois do colapso dos anos 1930 e da destruição material e humana da Segunda Grande Guerra, as reformas introduzidas nos Estados Unidos e na Europa possibilitaram três décadas de crescimento rápido, baixa inflação, ganhos elevados de produtividade, expansão do emprego e subida dos salários reais. Depois da reconstrução econômica da Europa e da resposta competitiva da grande empresa europeia, a rivalidade entre os sistemas empresariais promoveu o investimento produtivo cruzado entre os Estados Unidos e a Europa e a primeira rodada de industrialização fordista na periferia.

Nos países periféricos, predominantemente exportadores de produtos primários, a industrialização era vista como a única resposta adequada aos inconvenientes da dependência da demanda externa. A renda nacional dependia da exportação de produtos sujeitos à tendência secular de queda de preços e flutuações cíclicas da demanda.

A América Latina "desenvolvimentista" foi integrada a este surto de expansão. O Brasil, como os demais, valeu-se de políticas nacionais de industrialização que, no âmbito doméstico, trataram de promover a "internacionalização" da economia, ou seja, a repartição de tarefas entre as corporações multinacionais, as empresas estatais e os empreendimentos privados nacionais. A odisseia industrializante brasileira converteu, em poucas décadas, um pais rural em urbano, com um dos parques industriais mais complexos da periferia do sistema.

Nos anos 80, primeiros passos da desregulamentação financeira nas economias centrais e da metástase produtiva da grande empresa, alguns compreenderam a globalização como um acirramento da concorrência hierárquica, uma disputa pelo espaço manufatureiro. Outros, desavisados, fantasiaram o comércio internacional como uma festa de amigo secreto: cada participante leva e recebe um presentinho, como recomenda a teoria das vantagens comparativas. As duas abordagens tiveram corolários distintos: o Brasil em 1980 exportava US$ 21 bilhões, contra US$ 16 da China e da Coréia. Em 2014 as exportações brasileiras alcançaram a cifra de US$ 225 bilhões, contra US$ 573 bilhões da Coréia e US$ 2,3 trilhões da China.

Sob os constrangimentos da globalização real, o Parlamento Europeu vem reafirmar a relevância do "setor industrial" como condutor do crescimento e do emprego na economia da União Europeia. Apesar de apenas uma entre dez empresas na União Europeia estar classificada como manufatureira, o setor compreende dois milhões de companhias e é responsável por 33 milhões de empregos. Ele também é responsável por mais de 80% das exportações e 80% das pesquisas privadas e inovações, configurando um dos elementos chave para o crescimento sustentável. Cada novo emprego na manufatura resulta na criação de um e meio a dois empregos em outros setores.

A contribuição relativa da indústria na economia europeia perdeu um terço da sua base nos últimos 40 anos, em grande medida devida a ascensão da manufatura em outras partes do mundo (notadamente China), fenômeno observado em outras economias desenvolvidas. Em resposta a esse declínio, a Comissão Europeia definiu como meta que em 2020 a manufatura deverá representar 20% do valor agregado na União Europeia, adotando como estratégia ajudar todos os setores industriais a explorarem novas tecnologias e manejarem a transição para o sistema industrial inteligente, a Indústria 4.0.

Em linhas gerais, a Indústria 4.0 se apoia na ideia de fábricas inteligentes com máquinas conectadas em rede e a sistemas que podem visualizar toda a cadeia produtiva, podendo tomar decisões por si só. A nova fase da digitalização da manufatura é conduzida pelo aumento do volume de dados, ampliação do poder computacional e conectividade, a emergência de capacidades analíticas aplicada aos negócios, novas formas de interação entre homem e máquina, e melhorias na transferência de instruções digitais para o mundo físico, como a robótica avançada e impressoras 3-D.

Também buscando restaurar a proeminência da sua manufatura, os Estados Unidos estabeleceram uma Rede Nacional para Inovação na Manufatura, batizada de Manufacturing USA, com sede no Departamento de Comércio, operando em parceria com o Departamento de Defesa, o Departamento de Energia, a NASA, a Fundação Nacional de Ciência, o Departamento de Educação e o Departamento de Agricultura.

A capacidade produtiva e de crescimento da Indústria 4.0 se insere na estratégia das economias centrais para realocar ("re-shore") geograficamente o eixo industrial. Se a manufatura é largamente automatizada, ela não necessita mais ser "off-shored" ou alocada em países distantes com baixo custo de mão de obra (e altos custos de transporte).

Os efeitos da substituição de trabalhadores em um vasto espectro de indústrias não sinalizam a religação do circuito de formação do emprego e da renda que, em seu formato "fordista", era ativado pela demanda de crédito para financiar o gasto dos empresários, confiantes nos efeitos recíprocos da expansão da renda no conjunto de atividades que se desenvolviam nos espaços nacionais, a partir da generalização dos métodos de produção industriais que invadem os serviços e a agricultura.

A revista Forbes publicou estimativa de que 47% dos empregos americanos estejam ameaçados pela automação. Especialistas sugerem especial prejuízo aos mais pobres, especialmente pelo desaparecimento dos trabalhos de baixa qualificação e salário.

A hiperindustrialização 4.0 oferece em uma das mãos as promessas da abundância e do tempo livre; na outra, ameaça com a precarização, a queda dos rendimentos dos trabalhadores menos qualificados, o desemprego tecnológico estrutural e o aumento da desigualdade.

Nesse momento de profundas transformações, o Brasil afunda em uma depressão 4.0 detonada por concepções da Macroeconomia 0.4. Os palpiteiros 0.0, fâmulos do mercado financeiro, contorcem argumentos e distorcem os dados para justificar o avanço ominoso do rentismo e de seus ganhos, matriz do retrocesso industrial. Não por acaso, os primatas exportadores daqui alegam a irrelevância da industrialização para o desenvolvimento econômico.

O Brasil dá marcha-a-ré com aceleração 5.0

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