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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

O mercado precisa explicar

Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, RJ

04/11/2018

O Mercado chegou ao Brasil com as caravelas de Pedro Álvares Cabral. E tratou logo de trocar o pau-brasil, a nossa ibirapiranga, por espelhinhos e outras bugigangas com os índios. Estes, encantados com a novidade, foram alegremente destruir as florestas para abastecer as caravelas. Chamou-se, depois, na nossa história, de ciclo do pau-brasil.

Em seguida, o mercado foi à África e arrebanhou diversas etnias – nagôs, jejês, fanti, fulas, mandingas e, principalmente, malês* e bantus* - e as colocou para morrer em canaviais, por fome, doença ou torturas, para que o mercado levasse açúcar para Europa.

Ainda no ciclo do açúcar, chegaram asiáticos, com suas famílias, escravizados por dívida, para trabalhar no sudeste. A tecnologia exigida pela transformação do ciclo do açúcar no ciclo do café levou à farsa da libertação dos escravos para a escravidão permanente pelas dívidas e salários de fome.

Todas as tentativas de industrialização do Brasil foram obstaculizadas, combatidas, desfiguradas pelo mercado. Por isso, jamais tivemos o ciclo industrial. Apenas, aqui ou ali, um sopro, uma tentativa, logo assassinada por campanha de demérito do brasileiro, do convencimento que não tínhamos nem teríamos condição de ser um País industrializado.

É emblemática a frase de Eugênio Gudin, para Edmundo Macedo Soares, a respeito da criação da Companhia Siderúrgica Nacional: siderurgia é para brancos, não é coisa para nós.

Retomemos, brevemente, o vergonhoso período de 400 anos de escravidão oficial, sempre com o patrocínio e aproveitamento do mercado.

No Volume VI, da História Geral da África, editada pela UNESCO, temos a informação que o Brasil recebeu 38% de todos os africanos que vieram para as Américas. E já descontados os cerca de 15%, que diversos historiadores apontam como mortos na travessia África-América. O mercado precisa explicar isso; ou, lavajatianamente, não tem importância?

Sem o ciclo industrial, nem se poderia pensar no ciclo científico-tecnológico que faz a diferença no século atual. A tentativa de emergir, colocar a cabeça acima do nível da água, foi tentada no Governo Geisel. Veja que entre março de 1974 a 1979, foram criadas a Cobra (julho/1974), desenvolvimento da informática, a Nuclebrás (dezembro/1974), desenvolvimento da tecnologia nuclear, o Programa do Proálcool (1975), desenvolvimento de tecnologia da energia, e ampliação da Embraer (criada em 1969), tecnologia aeroespacial, hoje todas encerradas, privatizadas ou adormecidas, sem recursos orçamentários.

No século XXI, o mercado se resumiu às finanças. É o sistema financeiro internacional, que denomino, abreviadamente, banca.

E a banca transformou tudo que se fatura, por salário, por lucro, por aluguel, em juros, em dívida à banca. E deste modo foi se apossando de todos os bens.

O mercado criou empresas de investimento, poderosos fundos de aplicação, coletando desde fortunas de famílias, lucro de traficantes, subornos de dirigentes privados e públicos, salários de magistrados e barnabés, e, se for possível, as esmolas caridosamente dadas, para estes trilionários, em dólares, fundos de investimentos.

Deste modo, as empresas, antes competindo pelos clientes, tem hoje os mesmos donos, denominados BlackRock, State Street Global Advisors, Allianz Global Investors, Vanguard Group, Fidelity Investments etc. Eles são os donos da Unilever e da Colgate-Palmolive, da Ford e da General Motors, da Exxon e da Shell, das empresas de comunicação e de entretenimento. O mercado precisa, então, explicar o que é competitividade; ou isto também não tem importância?

Sendo dono das empresas, como bom administrador, o mercado não vai ter custo administrativo e logístico dobrado ou triplicado, nem oferecer vantagem para conquistar um bom operário. Por isso vemos, também, os salários diminuindo e o número de empregos sendo reduzido. O mercado deve explicar isso; ou ainda não tem importância?

A escola, o hospital, o ônibus ou o trem, de algum modo estão nas mãos do mercado. E, por isso, que rareiam ou somem, onde não dão lucros compensadores ao mercado. Afinal, para economia do mercado não é o atendimento, bom ou péssimo, que interessa, mas o lucro que se pode obter.

Será que o mercado não nos deve uma explicação pela falta destes serviços fundamentais para a vida e dignidade humana? Ou também nossa vida não tem importância?

Com meu agradecimento ao culto e percuciente analista Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães que, em palestra, em 01/11/2018, iluminou-me para escrever este artigo.

* O erudito intelectual Nei Lopes, particular amigo, corrigiu-me as referências aos Bantus (enorme grupo linguístico) e Malês (grupo religioso) por não constituírem etnias.

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