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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

Para distinguir compromisso de empulhação eleitoral

J. Carlos de Assis, economista, RJ

25/10/2018

Campanha eleitoral é o momento de assumir compromissos, mas é também o momento das promessas vãs para esbulhar o eleitor. Como distinguir entre as duas? Como saber se Haddad, por exemplo, tem propostas de governo mais consistentes que Jair Bolsonaro? Isso na realidade tornou-se muito fácil na eleição atual pois Bolsonaro, depois de copiar alguns compromissos de Haddad, só tem uma proposta bem clara: vender todas as participações do Governo nas estatais por 800 bilhões de dólares. Está tudo calculado, diz ele.

Assumida através do economista neoliberal Paulo Guedes, essa proposta só tem um problema “técnico”: o que fazer com esses 800 bilhões! Sim, porque a sociedade não aceitaria que todo esse dinheiro fosse doado simplesmente aos banqueiros, através do serviço da dívida pública. E mesmo que fosse doado, haveria um problema: o que os receptadores desse dinheiro fariam com ele. Teriam que aplicá-lo novamente na dívida pública porque ninguém em sã consciência colocaria tanto dinheiro em fundos de investimento privados.

Então o ínclito Paulo Guedes criaria um problema do diabo para o governo: com uma mão ele venderia as estatais; com a outra ele aumentaria de novo a dívida pública. É que o Governo não poderia ficar com tanto dinheiro no caixa. Teria que devolvê-lo de uma forma ou outra ao setor privado, que por sua vez trataria de aplicá-lo em títulos públicos, sobretudo se o país continuar em recessão. Assim, mesmo que o Governo doe o dinheiro das privatizações aos maganos privatistas, o ciclo de especulação aguda com dívida pública não se encerra.

Você poderá perguntar: por que esse processo não ficou claro no auge das privatizações de Collor, de Fernando Henrique e Temer? É o efeito do tempo. Realizadas aos poucos, as receitas financeiras das privatizações se diluem. O dinheiro some no pagamento da dívida pública e a dívida pública aumenta de novo, porém lentamente, na medida em que o Governo emite mais dívida pública para “enxugar” o mercado financeiro. No fim, temos um processo completo de doação das estatais para o setor privado e de aumento da dívida.

Jair Bolsonaro não sabe nada disso porque, assumidamente, nada entende de economia. De Paulo Guedes, porém, há dúvidas. Se ele não sabe, é um farsante, pois se apresenta como um grande especialista em Economia. Se sabe, é um vigarista, que quer passar simplesmente para mãos privadas a riqueza nacional de 800 bilhões de dólares virtualmente de graça, e praticamente dobrando a dívida pública. No rastro disso, teríamos o derretimento de todos os ativos do Governo sem a contrapartida de geração de um único emprego.

Examinando esta que é apresentada como a principal proposta econômica de Bolsonaro verificamos quão longe ela está de uma agenda efetiva de promoção de emprego. Nossa sugestão, ao contrário da dele, é não apenas geração de emprego, mas geração de pleno emprego. Em outras palavras, propõe-se criar uma situação na qual praticamente todos os desempregados de hoje, cerca de 13 milhões de pessoas, desde que aptos e dispostos a trabalhar, encontrarão ocupação remunerada no mercado de trabalho.

Sabe-se como fazer isso. Já foi feito com grande sucesso nos Estados Unidos e na Alemanha dos anos 30, quando esses países estavam mergulhados na Grande Depressão e numa situação de desemprego similar à nossa, da ordem de 27% quando se considera o subemprego. Nós sabemos como seguir a trilha para acabar com o desemprego e nenhum tipo de preconceito neoliberal contra o gasto público nos impediria de percorrê-la. E não serão promessas vazias de um candidato vadio, sem propostas, que impediria essa conquista social.

O fato é que a sociedade não precisa de ter muito trabalho para discriminar o que é promessa honesta de campanha de pura empulhação. É só pedir para ver o que está por trás delas. Os apoiadores de Haddad não tem nenhuma dificuldade em apresentar as suas, em todos os seus detalhes. Se quiser ter credibilidade, Guedes, o alter ego de Bolsonaro, deveria começar por apresentar as suas. Uma coisa é dizer que vai privatizar 800 bilhões de dólares de estatais. Outra é dizer o que fazer com o dinheiro. Será doação para fazer mais dívida bilionária?

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