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Nova estratégia americana

José Luís Fiori, filósofo e professor, RJ

05/03/2018

"We will pursue this beautiful vision – a world of strong, sovereign, and independent nations, each with its own cultures and dreams, thriving side by side in prosperity, freedom, and peace [...]. We are also realistic and understand that the American way of life cannot be imposed upon others, nor is it the inevitable culmination of progress." Presidency of the United States, "National Security Strategy of the United States of America", December 2017, Washington, p.

No dia 18 de dezembro de 2017, a Casa Branca divulgou o texto da nova "estratégia de segurança nacional" dos Estados Unidos, antes que o presidente Donald Trump completasse o primeiro ano do seu mandato. Todos os governos americanos fazem o mesmo, mas engana-se quem pensar que se trata apenas de uma obrigação burocrática, porque atrás de sua aparência convencional o novo texto esconde uma ruptura revolucionaria que transcende a figura errática do presidente Donald Trump.

Na parte menos inovadora do documento, a Casa Branca define os interesses e objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos:

  1. proteger o povo americano e seu modo de vida;
  2. promover a prosperidade econômica e a liderança tecnológica americana;
  3. preservar a paz mundial através da força;
  4. e avançar a influência global dos EUA.

E, em seguida, identifica os principais inimigos e concorrentes dos EUA

  1. a Rússia e a China que se propõem modificar a "ordem mundial" liderada pelos EUA;
  2. a Coreia e o Irã, que se propõem alterar o equilíbrio geopolítico de suas regiões;
  3. e, finalmente, o "terrorismo jihadista", e toda "organização criminosa internacional" ligada ao tráfico de drogas e armas.

A grande novidade da nova estratégia de segurança nacional dos EUA, entretanto, não está em nenhum desses pontos. Está escondida nas entrelinhas do documento onde aparecem suas premissas e definições fundamentais, que são apresentadas como se fossem uma coisa trivial ou consensual, quando na verdade não são, pelo menos na tradição americana. De forma sintética, quase telegráfica:

  1. Os EUA assumem que o sistema mundial não é o lugar de uma luta global entre o "bem" e o "mal", e está composto por povos e nações que possuem valores, culturas e "sonhos" diferentes dos norte-americanos;
  2. Mais do que isto, consideram que não existe nada que assegure que os valores americanos triunfarão no final da história.
  3. Como consequência, os americanos aceitam - implicitamente - que não existem "valores universais", nem existe um "destino histórico convergente’ da humanidade, abandonando o velho projeto messiânico de conversão dos povos à ética cristã, e à "razão iluminista"
  4. Como consequência, os EUA assumem a premissa realista de que o "sistema mundial" é um espaço de competição permanente pelo "poder global", entre estados e interesses nacionais que seguem sendo a única base sólida do sistema internacional..
  5. E, por fim, nesse novo contexto, os EUA anunciam ao mundo que se orientarão daqui para frente, exclusivamente, pela bússola dos seus "interesses nacionais", abrindo mão da condição de árbitros de todos os grandes conflitos mundiais.

Mas atenção, porque os EUA seguem se considerando um "povo escolhido", com a certeza de que seus valores nacionais não são exclusivos, mas são superiores aos de todos os demais povos do mundo. Eles abdicam da função de defensores e árbitros da "ética internacional", mas em troca assumem plenamente sua condição e seu objetivo de "império militar" com projeção global. Numa competição permanente e sem árbitros, onde todas as alianças e guerras são possíveis, em qualquer momento e lugar. E onde sua moeda, sua finança e suas sanções econômicas são assumidas plenamente, como instrumento de poder, e como arma de guerra. Por isso, da parte dos EUA, o que se deve espertar daqui para frente, é uma estratégia de guerra de movimento, com a prática recorrente do "bullyng militar" contra seus adversários, e contra os aliados de seus adversários., obrigando-os à uma corrida tecnológica e militar defensiva sem precedente histórico.

Esta nova estratégia dos EUA pode ser revertida? É muito difícil de dizer, porque ela é o produto de uma luta interna que ainda não acabou. O mais provável, entretanto, é que se mantenha no futuro, a menos de uma mudança na "configuração de força" mundial. O problema é que para que ocorra esta mudança, as demais potências terão que seguir a mesma cartilha dos americanos, e este é um caminho que aponta inevitavelmente, para um horizonte de "guerra infinita".

Obs: Este artigo foi, inicialmente, publicado em GEEP e faz parte de uma série sobre as mudanças internacionais dos últimos anos, analisadas a partir da estratégia dos seus principais atores, e de sua posição dentro dos principais tabuleiros geopolíticos e geoeconômicos mundiais.

Obs: José Luís Fiori é Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, e do Programa de Pós-Graduação em Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada da UFRJ; Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq/UFRJ, "Poder Global e Geopolítica do Capitalismo", www.poderglobal.net, e do Laboratório de "Ética e Poder Global", do PPGBIOS; e consultor do GEEP-FUP.

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