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O futuro do Oriente Médio: petróleo, soberania e "guerra de posição"

José Luís Fiori, filósofo e professor, RJ

14/04/2018

"Toda tentativa de assegurar o controle do Golfo Pérsico será considerada um ataque aos interesses dos Estados Unidos e terá resposta militar" Presidente Jimmy Carter, Discurso sobre o "Estado da Nação", 23 de janeiro de 1980.

O primeiro poço de petróleo, registrado no mundo, foi descoberto por Edwin Drake, em 1859, no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Nas quatro décadas seguintes, o petróleo começou a ser explorado, utilizado e exportado pelos norte-americanos como fonte de iluminação. E só se transformou numa fonte de energia importante para o transporte e para a guerra, no início do século XX, com o desenvolvimento da indústria automobilística, e com o andar da Primeira Guerra Mundial. Neste período e até o final da Segunda Grande Guerra, os EUA e o Golfo do México foram os principais produtores e fornecedores do petróleo mundial. Para que se tenha uma ideia da "assimetria energética" que existia na distribuição da nova fonte de energia mundial, basta dizer que dos 7 bilhões de barris/dia utilizados pelas forças aliadas, durante a Segunda Guerra, 6 bilhões foram fornecidos pelos EUA. Mas no final da guerra, os governos e as grandes corporações petrolíferas já tinham identificado o potencial energético do Oriente Médio e já haviam iniciado sua exploração, ainda que de forma incipiente, no Irã, Iraque e Arábia Saudita. Mas foi em 1945, a caminho da reunião de Yalta, que o presidente americano Franklin D. Roosevelt reuniu-se com o rei Ibn Saud da Arábia Saudita, a bordo do navio USS Quinci, e deu os primeiros passos de uma das alianças estratégicas mais importantes dos Estados Unidos, em toda a segunda metade do século XX.

A partir daquele momento, a Arábia Saudita também se tornou um dos pontos de convergência mais produtivos do mundo, entre os interesses públicos e privados, comerciais e estratégicos, dos Estados Unidos.

Logo depois do fim da guerra, os EUA apoiaram a criação de Israel, em 1948, e transformaram o estado judeu na segunda grande peça do seu jogo estratégico dentro do Oriente Médio. E, por fim, os EUA orquestraram junto com a Grã Bretanha o golpe de estado contra o primeiro-ministro nacionalista do Ira, Mohammed Mossadegh, em 1953, e transformaram o Irã, do Xá Reza Pahlavi, no terceiro grande pilar da sua tutela geopolítica e militar da região que passou a ser a principal fornecedora de petróleo do sistema produtivo mundial. Do ponto de vista estritamente econômico, a "ordem energética" do pós-guerra foi um grande sucesso, garantindo o fornecimento de petróleo abundante e barato para a reconstrução da Europa e para o funcionamento da economia mundial durante todo o período que ficou conhecido como a "época de ouro do capitalismo", entre 1950 e 1975. Apesar disso, por trás da tranquilidade da oferta e dos preços, travou-se uma intensa disputa - durante todo esse período - em torno à repartição das receitas do petróleo, entre os países produtores e as grandes corporações privadas. Os países produtores transformaram esta batalha numa luta nacionalista e anticolonialista que culminou com a criação da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), em 1960, com o objetivo de coordenar a política de defesa dos interesses dos seus 12 países membros. Logo em seguida, na "Guerra dos 7 Dias" entre judeus e árabes, em 1966, a OPEP tentou utilizar pela primeira vez - mas sem sucesso - o seu poder de cartel contra os países apoiadores de Israel.

Mas em 1973, na "Guerra do Yom Kippur", a OPEP logrou impor um "embargo" bem sucedido do fornecimento de petróleo aos EUA, Europa Ocidental e Japão, os principais aliados de Israel, nessa guerra iniciada pelo Egito e pela Síria. Independente do resultado da própria guerra, esse embargo provocou a primeira grande subida do preço internacional do petróleo depois da Segunda Guerra. O preço do barril quadruplicou e derrubou o "regime energético" da "era de ouro", baseado no petróleo abundante e barato. Foi nesse momento que as grandes potências consumidoras criaram a "Agência Internacional do Petróleo", com o objetivo de coordenar sua política e sua estratégia frente ao desafio da OPEP e de sua defesa dos interesses dos países produtores. Apesar dessas precauções tomadas pelas grandes potências, a Revolução Islâmica do Irã e o início da guerra entre o Iraque e o Irã, no final da década de 70, início dos 80, provocaram uma nova duplicação do preço do petróleo que só pôde ser controlado e compensado com a oferta dos novos poços de petróleo do Alasca e do Mar do Norte, nessa mesma década de 80.

A guerra entre o Irã e o Iraque teve um final inconclusivo, mas os EUA perderam um dos seus principais aliados na região, o Irã, que passou a confrontar de forma crescente, a Israel e os EUA, que tiveram que refazer suas alianças regionais, utilizando-se dos novos países e emirados do Golfo Pérsico criados na década de 70, depois da retirada das últimas tropas britânicas da região. A nova coalisão, entretanto, não conseguiu impedir a invasão do Kuwait pelas tropas do Iraque e foi obrigada a liderar a Guerra do Golfo, em 1990 e 1991, que recolocou o Oriente Médio e o Golfo Pérsico no epicentro das "angústias energéticas" das potências ocidentais, depois do fim da Guerra Fria.

No início do século XXI, depois dos atentados do 11 de Setembro, as Guerras do Afeganistão, 2001, e do Iraque, em 2003, envolveram os EUA e seus aliados da OTAN, numa guerra quase contínua que se estende até os nosso dias, sendo travada simultaneamente em vários pontos simultâneos do "Grande Oriente Médio". O projeto americano de "conversão" do mundo árabe à democracia e aos valores ocidentais, anunciado pelo presidente George W. Bush, em 2004, foi um estrondoso fracasso. Mas do ponto de vista estritamente militar, os norte-americanos mantiveram sua presença e seu controle das principais fontes energéticas da região. Apesar disso, o sucesso da intervenção militar da Rússia na Guerra da Síria, em 2015; o crescimento da influência regional do Irã, no Iraque e no Líbano; o afastamento progressivo da Turquia dos seus antigos aliados da OTAN; e a entrada da China e da Índia no rol dos grandes consumidores mundiais de petróleo, com forte interesse nos poços do Oriente Médio vem modificando, de forma radical, o desenho geopolítico e geoeconômico da região, e, em particular, do Golfo Pérsico. Aliás, é nesse contexto que se deve ler e entender a nova estratégia regional do governo Trump, que abdica de sua antiga posição arbitral entre os principais interesses e conflitos intra-regionais, e assume plenamente sua opção pela Arábia Saudita contra o Irã, e por Israel contra os palestinos e seus apoiadores árabes.

Assim mesmo, aos poucos, vai se delineando uma nova configuração de forças, em torno a um eixo articulado pela Rússia, Turquia e Irã, e suas zonas de influência, e um outro eixo, articulado pelos EUA, Arábia Saudita e Israel, com suas alianças árabes e seus apoios europeus. No longo prazo, é bem possível que as lutas internas da região e suas próprias disputas religiosas apontem na direção da consolidação de um sistema estatal regional, por cima das antigas reivindicações do nacionalismo pan-arábico, e por cima das tendências pan-islâmicas de algumas seitas e grupos de poder regionais, como foi o caso mais recente do Estado ou Emirado Islâmico. Mas esta tendência ao fortalecimento de um sistema de soberanias nacionais autônomas e equipotentes dentro do Oriente Médio deverá seguir sendo atropelada e bloqueada por todas as grandes potências do sistema internacional que seguem considerando que os recursos energéticos da região são um "patrimônio da humanidade", e fazem parte indissociável dos seus interesses estratégicos nacionais. Desse ponto de vista, o mais provável é que o futuro do Oriente Médio aponte na direção de uma "guerra de posições" prolongada, com a interferência das grandes potências externas e sua manipulação das divisões milenares, quase telúricas, da velha Mesopotâmia.

Abril de 2018

Obs: Este artigo foi, inicialmente, publicado em GEEP e faz parte de uma série sobre as mudanças internacionais dos últimos anos, analisadas a partir da estratégia dos seus principais atores, e de sua posição dentro dos principais tabuleiros geopolíticos e geoeconômicos mundiais.

Obs: José Luís Fiori é Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, e do Programa de Pós-Graduação em Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada da UFRJ; Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq/UFRJ, "Poder Global e Geopolítica do Capitalismo", www.poderglobal.net, e do Laboratório de "Ética e Poder Global", do PPGBIOS; e consultor do GEEP-FUP.

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