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O xadrez-chinês do leste asiático: raízes históricas e configuração atual

José Luís Fiori, filósofo e professor, RJ

20/05/2018

"Europe was the birthplace of modernity. As its tentacles streched around the globe during the course of the two centuries after 1750, so its ideas, institutions, values, religion, languages, ideologies, customs and armies left a huge and indelible imprint on the rest of the world [..] However, rather than simply being clones of it, East Asian modernities are highly distinctive, spawning institutions, customs, values and ideologies shaped by their own histories and cultures".
Martin Jacques, "When China rules the world"
The Penguinb Press, New York, 2009, p: 21 e 22

Já não cabem dúvidas sobre o papel decisivo da diplomacia chinesa no processo em curso de negociação da pacificação e desnuclearização da península coreana. Mas, ao mesmo tempo, se este processo for bem sucedido, o seu maior beneficiário será também a China, com o afastamento ou diminuição das tropas americanas sediadas na Coréia do Sul, acelerando o processo de plena instalação no leste e sudeste asiático do "sistema interestatal capitalista" inventado pelos europeus. Porque de fato os asiáticos não viveram nos séculos XVI e XVII um fenômeno análogo ao dos europeus, e a maioria dos seus estados nacionais – com a grande exceção do Japão - só nasceu ou se consolidou depois do fim do colonialismo europeu, já em pleno século XX. Mas as raízes geopolíticas e culturais de suas três grandes potências regionais - China, Japão e Coréia - são muito anteriores à presença e à influência europeia na Ásia. Mesmo durante os séculos percorridos desde a chegada dos primeiros europeus até sua plena dominação colonial, essas três potências mantiveram sua identidade cultural, junto com suas fronteiras territoriais. E o mesmo voltou a acontecer depois que estas três civilizações assumiram a forma e a institucionalidade dos estados nacionais, mantendo suas clivagens e suas especificidades culturais com relação à chamada civilização ocidental. Na verdade, suas relações internas e externas de poder só se alteraram efetivamente a partir da segunda metade do século XIX, quando a presença e a dominação colonial europeia passou a intervir de forma direta ou indireta na promoção de novas divisões e conflitos entre os povos asiáticos que foram incorporados aos grandes impérios coloniais construídos pelas potências ocidentais. Este passado milenar e esta história colonial do último século e meio vem pesando decisivamente na evolução do quadro geopolítico asiático, na hora em que os novos estados e economias nacionais da região estão redefinindo e acelerando o seu processo de integração na nova ordem político-econômica mundial do século XXI.

Resumindo uma larga história de forma extremamente sintética, se pode dizer que até a primeira metade do século XIX, a China conseguiu impor, de uma forma ou outra, a supremacia regional do seu "sistema hierárquico-tributário", construída durante a Dinastia Ming (1368-1644), e imposta de forma relativamente pacífica, ao Shogunato Ashikaga, no Japão (1336-1573), e à dinastia Yi na Coréia (1392-1897). Apesar de que – é importante sublinhar - estas duas dinastias - a japonesa e a coreana - conseguiram manter a sua autonomia econômica e cultural, apesar de sua submissão pacífica à hegemonia regional chinesa. Esta hierarquização secular e relativamente estável do leste e sudeste asiático, só veio a ser alterada durante o século XIX, com a mudança político-econômica que ocorreu no Japão, a partir da derrubada do Xogunato Tokugawa (1603-1869) e da Restauração Meiji (1868-1869), que iniciaram os processos de "modernização conservadora" e de "industrialização tardia" do Japão, que foram responsáveis pela transformação do Japão no primeiro sócio periférico e asiático das grandes potências capitalistas do sistema mundial. Desta vez, de novo, como já fizera no passado, com relação à China, o Japão voltou a copiar a tecnologia econômica e política dos europeus, e acabou introduzindo também na Ásia, as suas práticas imperialistas, com a anexação colonial de Taiwan, Coréia, Manchúria, e uma parte da própria China. Além de haver enfrentado e derrotado pela primeira vez uma potência europeia, como foi o caso da Rússia, na guerra de 1904/5, quando contou com o apoio da Grã Bretanha, com quem se aliaria logo a frente, na Primeira Guerra Mundial. De tal maneira que no fim da 1º Guerra, o Japão já participou das negociações de paz de Paris, ao lado das potencias vitoriosas que também discutiram o futuro da China, sob a égide da política de "portas abertas" patrocinada pelos Estados Unidos. Mas este alinhamento do Japão, ao lado do "mundo ocidental" durou pouco, porque na década de 30 os japoneses voltaram a invadir o território dos seus vizinhos que consideravam como parte do seu "espaço vital", propondo-se liderar uma frente asiática dos países que se opunham à "prepotência colonial" dos europeus e que eram favoráveis à formação de uma nova ordem econômica regional liderada pelo capitalismo de estado japonês.

A derrota do Japão na II Guerra Mundial, desmontou completamente este projeto japonês de hegemonia regional, mas ao mesmo tempo deixou um vazio de poder que foi imediatamente ocupado pelos Estados Unidos, depois de sua demonstração de força através do bombardeio atômico das cidades de Hiroshima e Nagasaki. Apesar disso, o início da Guerra Fria, em 1947, seguido da vitória da revolução comunista na China, em 1949, da Guerra da Coréia, em 1950, e do início da Guerra do Vietnã, em 1954, obrigaram os Estados Unidos a redefinir sua posição frente ao seu inimigo recém derrotado, apoiando a reconstrução acelerada da economia japonesa e a recolocação do Japão como cabeça de ponte dos interesses estratégicos norte-americanos no leste e sudeste asiático, ao lado da Coréia do Sul e de Taiwan. Como se fossem verdadeiros "protetorados militares" dos Estados Unidos com direito a um lugar privilegiado na grande expansão da economia capitalista do pós-guerra, liderada pelos norte-americanos e alimentada pela reconstrução da Europa que fora destruída pela guerra. Mais tarde, essas mesmas condições vantajosas do Japão foram oferecidas à Coréia, à Taiwan e a todos os países da região chamados na época de "gansos", por seguirem a liderança dinâmica da economia japonesa. Foi neste contexto geopolítico e militar, agravado pela intensificação dos conflitos locais com as guerrilhas comunistas na Malásia, Filipinas e Tailândia, e com o governo pró-comunista de Sukarno na Indonésia, que os Estados Unidos acabaram ampliando sua presença e seu envolvimento militar na Ásia, mesmo sem vencer a Guerra da Coréia (1950-1953), e mesmo tendo sido derrotados na Guerra do Vietnã (1955-1975). Isso tudo, por si só, já seria suficiente para explicar a complexidade do jogo geopolítico asiático depois do fim da Guerra Fria, e em particular nestas primeiras décadas do século XXI. Mas este quebra-cabeças asiático ficou ainda mais complicado depois da inflexão geopolítica dos anos 70 que reaproximou os Estados Unidos da China, e transformou a economia chinesa dos anos 90, e em particular, do início do século XXI, na grande "sócia" regional e global da economia norte-americana, e na segunda maior economia nacional do mundo.

Mas atenção, porque o sucesso econômico desta nova parceria global transformou a China – ao mesmo tempo, e cada vez mais - no grande rival e adversário geopolítico e militar dos Estados Unidos, na luta pela supremacia no leste e sudeste asiáticos, e no sul do Pacífico. Hoje, o sistema de estados e economias nacionais da Ásia está cada vez mais igual ao velho modelo europeu de acumulação de poder e de riqueza, que foi a verdadeira origem do nosso sistema internacional e capitalista. A Ásia é a zona de maior dinamismo econômico do mundo, e é no leste asiático que está em curso a luta mais intensa e explícita por uma hegemonia regional, envolvendo a China, o Japão e a Coréia, mas também, a Rússia e os Estados Unidos, numa competição que deverá ser o embrião da luta pelo poder global da segunda metade do século XXI. (Continua)

Maio de 2018

Obs: Este artigo foi, inicialmente, publicado em GEEP e faz parte de uma série sobre as mudanças internacionais dos últimos anos, analisadas a partir da estratégia dos seus principais atores, e de sua posição dentro dos principais tabuleiros geopolíticos e geoeconômicos mundiais.

Obs: José Luís Fiori é Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, e do Programa de Pós-Graduação em Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada da UFRJ; Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq/UFRJ, "Poder Global e Geopolítica do Capitalismo", www.poderglobal.net, e do Laboratório de "Ética e Poder Global", do PPGBIOS; e consultor do GEEP-FUP.

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