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Geopolítica

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Operação BRICS

Da Redação

02/01/2018

Entre os itens da pauta Temer a serem implementados num eventual governo de direita, ou a fim de pavimentar o caminho para ele, um dos mais regressivos é a desestruturação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS, por ser menos conhecido na sociedade e, portanto, por não ter uma estrutura política consolidada capaz de defendê-lo. A absoluta incompetência do Governo em usar com eficiência a instituição financeira que ele próprio ajudou a criar não deve obscurecer o potencial criado tanto para o plano interno quanto internacional.

O sistema BRICS é nossa ponte para escapar das garras do sistema financeiro ocidental, pois tem elevadíssimo nível de liquidez e não nos impõe condicionamentos regressivos para o desenvolvimento do nosso sistema financeiro nacional. As altas taxas de juros, a imposição do superávit primário mesmo em situação de depressão da economia, o câmbio extremamente valorizado, a liberdade absoluta do movimento de capitais, as restrições ao investimento público, tudo isso é a contrapartida de nossa adesão a-crítica ao sistema financeiro ocidental.

O Banco dos BRICS, de cuja criação o Brasil participou, não recebeu até o momento um único projeto de financiamento brasileiro, público ou privado. Entretanto, esse não é o único ponto essencial. Fundamental também é transitarmos estrategicamente para o sistema financeiro asiático onde se concentra a liquidez não condicionada e não especulativa no mundo. Dessa forma, escaparíamos da influência dos abutres sobre nosso próprio sistema, livrando-nos da ingerência de agências de risco, do FMI, do Banco Mundial, do BID, da OCDE e do BIS.

Uma transição do sistema financeiro ocidental para o asiático será extremamente favorável ao sistema produtivo brasileiro privado pois as taxas de juros de curto e longo prazo desabariam. Melhor ainda seria para o sistema de investimentos públicos. O momento para essa operação é justamente agora, quando os bancos ocidentais, voluntariamente, estrangulam o financiamento público e privado ao Brasil. O recurso ao sistema asiático, via Banco dos BRICS, apareceria como uma reação normal do Brasil a condições internacionais de financiamento.

Essa transição é a única oportunidade que temos de escapar das garras dos abutres financeiros ocidentais. Do contrário, nosso destino é o da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Irlanda, da Itália e da França, entre outros países europeus que estão em contração ou estagnados. Temos condições geopolíticas, dentro da estrutura dos BRICS, para dar essa virada histórica. Uma adequada base de financiamento pela China, no âmbito dos BRICS, nos possibilitará políticas keynesianas fiscais e monetárias, e políticas cambiais progressistas.

Nosso desafio é barrar a tentativa já em gestação de liquidar com nossa articulação nos BRICS a fim de aprofundar relações que os Estados Unidos através de tratados de livre comércio, conforme anunciado por Armínio Franga, Meirelles, Portugal e o próprio Temer. Note-se que não há a mais remota possibilidade de obtermos algum tipo de vantagem concreta nessa direção, porque os Estados Unidos quase nada tem a comprar de nós, em matéria de manufaturados, e são nossos concorrentes, em matéria de produtos primários.

A proposta aqui formulada é de promovermos um movimento geral no país no sentido de impedir qualquer regresso nas nossas articulações com o Banco dos BRICS, expressas como uma estratégia de destino para o Brasil. Poderíamos fazer isso através de um ciclo de conferências para professores e estudantes, de seminários abertos, de concursos para estudantes, de ciclos de conferências para sindicatos de trabalhadores e movimentos sociais. Essa estratégia seria estruturada num projeto e buscaríamos formas de financiamento, inclusive externas (BRICS), para implementá-lo.

O comando conjunto desse projeto seria da MECS, da Coppe/UFRJ, da CTB e da Fecam/SP, que cuidariam de entrar em contato com as universidades e institutos federais que se dispusessem a participar. Seria formado também um comitê sindical, e um comitê voltado para os movimentos sociais.

(Reproduzo esse artigo que foi publicado originalmente quando Temer e sua tropa se apossaram do poder. Como pode ser visto, minhas apreensões a propósito da atitude brasileira em relação ao BRICS estão plenamente justificadas.)

Endereço desta página:
http://www.frentepelasoberania.com.br/geopolitica/operacao-brics/

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