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Política para Indignados

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Política para Indignados

A ausência da grande política no debate de presidenciáveis

J. Carlos de Assis, economista, RJ

28/09/2018

O presidente da Aepet, Felipe Coutinho, tem sido um herói, ao lado de Fernando Siqueira, na defesa de uma política petrolífera nacionalista e popular. Com tremenda coerência, ambos tem mantido um espírito crítico permanente em relação às questões do petróleo no Brasil e no mundo, numa perspectiva nada corporativa como poderia se imaginar por causa da relação deles com a Petrobrás, empresa onde trabalham ou trabalharam.

Discuti com Coutinho a tremenda ausência no debate eleitoral da questão do petróleo. É a nossa maior riqueza, com um peso estratégico em nossa economia. Quando a Petrobrás descobriu o pré-sal e foram feitas as primeiras medições, o país comemorou o imenso potencial existente em nossas costas. Logo em seguida começaram os debates sobre o modelo de exploração e, já no governo Temer, entraram em jogo forças entreguistas.

Os principais líderes no Congresso da entrega do pré-sal a preços irrisórios foram José Serra, de São Paulo, no Senado, e José Carlos Aleluia, da Bahia, na Câmara. É claro que, sozinhos, não conseguiriam muita coisa. Mas a maioria do Congresso já vinha comprada desde o impeachment, de forma que não houve dificuldade em estabelecer-se uma frente ampla para atender aos interesses das multinacionais petrolíferas a fim de mudar a seu favor o modelo de exploração.

O governo Temer jogou pesado nas pressões para esvaziar os interesses brasileiros no pré-sal. Tínhamos grandes expectativas em relação a essa riqueza de escala planetária. Teríamos petróleo para garantir nossa autossuficiência por cinquenta anos, e esperávamos poder realizar amplos investimentos em educação, saúde e tecnologia, fazendo avançar consideravelmente nosso desenvolvimento. Tudo está indo abaixo com a política de Temer.

O mais trágico, porém, é que, exceto por uma observação de Ciro Gomes sobre a Petrobrás, não há debate sobre política petrolífera entre os presidenciáveis. São absolutamente omissos. E nem é possível criticar muito essa omissão específica porque estão omissos em todas as questões centrais do desenvolvimento brasileiro, inclusive no que se refere ao contexto geopolítico em que nos encontramos, onde somos manipulados diariamente pelo sistema Globo.

Tomemos o Jornal da Globo da última terça-feira: o apresentador interpretou como uma piada o pronunciamento de Donald Trump, na ONU, pelo qual ele descartou as políticas de globalização e anunciou sua crença numa doutrina de patriotismo. Isso não é brincadeira, como o jornalista interpretou. É uma linha estratégica. Ainda não explicaram aos empregados da Globo que os democratas, ao perderem as eleições, levaram com eles uma concepção geopolítica intervencionista comandada nos últimos tempos pelos Clinton.

Com a mídia subalterna que temos, era de esperar que pelo menos os líderes políticos de destaque soubessem distinguir entre uma piada e uma proposta política. Isso nos colocaria em condições de arquitetar nossa própria estratégia num mundo extremamente conturbado. Infelizmente, não temos realmente nenhuma formulação estratégica que se traduza em pelo menos alguns planos presidenciais. Em lugar de uma grande estratégia, ou de uma mais modesta política do petróleo, alguns presidenciáveis prometem ao povo construir creches e escolas, investimentos da órbita das prefeituras.

Lamentei que Siqueira, no Rio, e Carlão, em Brasília, tenham desistido de se candidatar à Câmara. Estão entre os maiores especialistas em petróleo no Brasil. Infelizmente as estruturas partidárias os repeliram. Esta é mais uma razão para se concluir que a estrutura partidária brasileira está podre, onde admite renovação positiva. Mas alguns heróis estão se candidatando. Minha expectativa é que o Movimento de Democratização do Congresso Nacional ajude a reforçar sua posição e a colocar mais candidatos decentes no Parlamento.

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