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Política para Indignados

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Política para Indignados

A direita na corda bamba entre Bolsonaro e Fernando Haddad

J. Carlos de Assis, economista, RJ

30/09/2018

Tenho um dileto amigo, eleitor consciente do PT, que está absolutamente convencido de que, num confronto no segundo turno, Fernando Haddad vence Bolsonaro. Evitei tratar o assunto na perspectiva da ciência política, isto é, das consequências que poderiam ocorrer para o país em termos das possíveis ações de outras forças políticas (e militares) em relação à vitória petista. Limitei-me a uma consideração de ordem prática. Ei-la.

Considere que, na antevéspera da eleição, bandidos fortemente armados assaltem um carro de um particular, levem um menino de cinco anos arrancado estupidamente da família e sumam com ele nas entranhas de uma favela. Não estou dizendo nada imponderável porque isso já aconteceu nos subúrbios do Rio. Houve caso em que o bebê foi arrancado do carro e ficou amarrado pelo cinto de segurança num longo trecho.

Essa cena dramática não é filme, nem emoção manipulada pela TV Globo. É o mundo de nossa realidade. Se um fato como esse acontecer nas vésperas da eleição, acho que dificilmente Bolsonaro não seria eleito. O racionalismo de meus amigos petistas não consegue ir muito além da razão. Em eleição, contudo, manda a emoção. Haddad ganharia a eleição racionalmente. Em termos de emoção, não consigo prever exatamente quem ganhará.

Outra questão são as consequências da eleição de Haddad ou de Bolsonaro. As forças de esquerda no Brasil sustentaram desde o impeachment que havia um golpe em curso. Sou plenamente a favor desse diagnóstico. A consequência disso, porém, é que não há base constitucional para dar suporte à vitória de Haddad. Seria necessário recorrer aos golpistas para mudar a opinião do Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público.

Estão achando isso muito complicado? Preparem-se. A eleição de Bolsonaro desencadeia um processo político ainda mais dramático que o de Haddad. Em primeiro lugar, ele proclama abertamente que não procurará ter base parlamentar. Segundo, ele sabidamente não tem competência administrativa, especialmente no campo econômico. Paulo Guedes, seu assessor econômico, é um principista neoliberal que nada sabe de economia política.

Querem mais? Bolsonaro se coloca claramente numa postura de dividir a sociedade brasileira no plano moral. Nem Temer chegou a fazer algo tão estúpido. Sua concepção de segurança é canhestra, pois faz dela uma simplificação grotesca, ou seja, a ideia de sair por aí matando bandidos de metralhadora em punho sem uma clara estratégia. Em suma, Bolsonaro nada fala e nada propõe para a política de Defesa, que deveria ser seu terreno próprio.

Talvez você me diga: diante desse quadro, como posso votar? Se ficar o bicho corre, se correr o bicho come. Meu conselho fraterno é: esqueça a eleição presidencial. Vote para presidente conforme a emoção, não pela razão. Feito isso, concentre-se no realmente importante nessas eleições. Escolha um senador (de preferência dois) progressista e um deputado federal progressista (se conhece, também um deputado estadual ou distrital).

Essa é a pauta do Movimento pela Democratização do Congresso Nacional, que criou o site frentepelasoberania.com.br. No site estão relacionados os candidatos progressistas ao Congresso Nacional, sendo também apresentada a lista dos que, tendo em vista a forma como votaram durante o governo Temer, merecem o título de vendilhões da Pátria e de traidores do povo. Tendo isso em vista, não haverá desinformados nas eleições de 2018.

Quanto ao embate Haddad x Bolsonaro, ele tem um aspecto irônico: a classe dominante brasileira conseguiu construir para si mesma uma armadilha política da qual não tem como escapar facilmente. Dada a brutalidade de Bolsonaro, cujo eventual governo ameaça ser marcado pela selvageria, a grande mídia interna não está tendo coragem de atacá-lo, por não saber o que vai se seguir. Os ataques vêm da direita internacional, como "The Economist", que desfechou uma catilinária contra o candidato.

Essa situação reflete o medo que a direita passou a ter diante do crescimento eleitoral de Bolsonaro, depois de ter namorado algum tempo com ele na expectativa de que seus votos revertessem para um candidato "moderado". Acontece que, inicialmente interessado apenas em criar posição como líder da extrema direita brasileira, Bolsonaro acabou sendo mordido pela mosca azul quando melhorou nas pesquisas. Agora a direita terá que domar o touro, na situação desconfortável de que, se tirar muito de Bolsonaro, terá que dar a Haddad. Que tal?

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