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Política para Indignados

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Política para Indignados

A manipulação subliminar do telespectador de tevê

J. Carlos de Assis, economista, RJ

02/10/2018

A forma mais cretina de simular uma participação democrática na política é deixar o sujeito meter a cara num vídeo de televisão para dizer o que ele quer para o Brasil. A resposta inevitável para essa pergunta é desfilar um conjunto de demandas específicas da vida diária, que vai de tapar um buraco na estrada a protestar contra a corrupção no governo, sem ligar um fato com outro numa proposição política concreta. A enquete nesse sentido feita pela tevê Globo nada ajuda a democracia. É, na verdade, um simulacro grosseiro da democracia.

A esmagadora maioria dos vídeos da Globo se divide em demandas domésticas e protestos contra a corrupção. Na verdade, o que se busca é destacar os chamados ataques à corrupção como uma espécie de sanção da opinião pública para o noticiário anti-corrupção que se tornou marca registrada da tevê. A grande mídia, sabe-se, se lavou na corrupção que ela própria divulgou de forma sistemática, não raro misturando fatos reais com fatos imaginados, tudo com o propósito claro de ganhar audiência. Parece que isso está acabando.

É que a grande emoção que se criou em torno da divulgação da corrupção já não se compara, hoje, ao auge da Lava Jato, sobretudo quando estavam em jogo líderes do PT e o próprio ex-presidente Lula. Estamos caminhando para situação em que, para manter elementos emocionais no noticiário, o Jornal Nacional (e a Veja) terá de divulgar roubo de galinha. Já as questões fundamentais da República, como a extrema exploração dos pobres pelos poderosos e a transferência de rendas do povo para o sistema financeiro, são ignoradas.

Não estou dizendo que a mídia não deve divulgar fatos de corrupção. Digo, sim, que ela não pode se limitar a isso e tomar como verdade declarações de promotores ou decisões de juízes que estão sujeitas a recursos. As pessoas tem que entender que o sistema de recursos judiciais foi inventado para proteção do cidadão, e não ao bandido. Claro, algum bandido pode se beneficiar dele. Mas é o preço que se paga para proteger o inocente. Ou o suspeito que é preso deve ser condenado segundo sua suposta culpa, mesmo inventada?

Do ponto de vista jornalístico há uma questão adicional. O conceito de jornalismo investigativo supõe um trabalho jornalístico que não se limita a declarações de promotores e de juiz. Escrevi isso num pequeno livro, “Os sete mandamentos do jornalismo investigativo”, onde assinalo as trilhas que eu próprio criei e segui quando, ainda nos tempos da ditadura, denunciei vários escândalos financeiros no país. Entretanto, nos tempos de Lava Jato, a grande imprensa se limitou a um jornalismo declaratório, sem qualquer investigação independente.

Mesmo o jornalismo declaratório, contudo, é melhor que o jornalismo editorializado que a Globo vem fazendo, arrastando com seu modelo outras emissoras. Ninguém contesta o direito de uma emissora de televisão de dar sua opinião sobre um tema qualquer. O que se contesta é a mistura da notícia com o editorial. Isso se chama manipulação pela mídia, e é uma violência contra a consciência do telespectador. E é justamente isso que está em jogo na campanha “que país você quer para o futuro”, de maneira obviamente subliminar.

Entretanto, nada mais pernicioso politicamente na televisão do que os editoriais de Faustão picotados ao longo de seu programa. É um retalhamento irresponsável de questões políticas menores para dar a impressão de que são a característica fundamental da política. De fato, para Faustão, todo político, independentemente da biografia real, é um bandido. Isso enxovalha a política como atividade humana essencial à organização da sociedade. Ele não está preparado para entender isso, mas o que prega, na essência, é o anarquismo, ideologicamente superado desde o início do século XX.

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