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Política para Indignados

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A revanche de Davos

Daniel Afonso da Silva, historiador, SP

29/01/2018

Os ataques de 11 de setembro de 2001 deram novo significado à dinâmica mundial. A superpotência norte-americana foi contestada. A ilusão unipolar desapareceu. O terrorismo monopolizou a agenda. E o espaço internacional ingressou em progressiva fragmentação. Essa fragmentação foi evidenciada ainda nos últimos meses daquele primeiro ano do século. A China ingressaria na Organização Mundial do Comércio, a África avançaria a fundação de sua União Africana, bancos de investimentos passariam a utilizar o acrônimo BRIC e os países emergentes conheceram o início de seu momento eufórico. Tudo isso daria novos contornos à política, à geopolítica, à geoeconomia e à geodiplomacia em toda parte. A eleição do presidente Lula da Silva em 2002 seria, em grande medida, produto desse cenário em mutação - "a esperança vencia o medo".

Janeiro de 2003 viu o retirante nordestino estrear no poder magnânimo. Sua estreia doméstica foi em Porto Alegre. No Fórum Social Mundial. Onde se lançavam as bases para "outra globalização". Sua estreia internacional teria lugar em Davos. No Fórum Econômico Mundial. Onde se discutia os destinos dos dividendos econômicos do novo século.

A presença do presidente Lula da Silva nesses dois eventos concorreu para a construção de uma sólida passarela entre a sensibilidade para o social e a alta finança.

Quinze anos depois, o encontro de Davos, longe de ser socialista, está mais próximo de Porto Alegre que nunca. O relatório anual do Fórum, o "The global risks report 2018", e o conjunto de manifestações do evento indicaram a complexidade do mundo que nos espera nos próximos doze meses. Desastres naturais, crises migratórias e ambientais, falta d’água, ciberataques etc. Mas o mais estonteante foi, claramente, a preocupação social e com a redução de desigualdades expressas nas falas imponentes do presidente francês, Emmanuel Macron, ao presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, e chegando chanceler alemã, Angela Merkel.

Dez anos após a crise financeira de 2008 e a economia mundial ainda cambaleia. Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, foi quem aludiu mais imperativamente ao fato.

Entretanto, numa impressão mais ampla, mesmo que empresas "too big to fail" tenham sido salvas em 2008, a degradação e a destruição de pactos e conquistas sociais, políticas e morais vêm alcançando níveis inimagináveis. Níveis que nem o após-1914-1918 observaram.

A dinâmica política - para ficar apenas num exemplo - demonstra essa degradação. O após-1929 produziu o presidente Franklin Delano Roosevelt nos Estados Unidos. O após-2008 - malgrado a reeleição do presidente Barack Obama em 2012 - produziu, efetivamente, Donald J. Trump.

Dessa maneira, após a crise financeira de 2008, a brutalização dos convívios entre iguais e diferentes vem ganhando dimensão inédita mundo afora. O impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e a recente condenação do presidente Lula da Silva participam dessa brutalização.

Quando do dito "escândalo do mensalão", em 2005, segmentos divergentes ao presidente Lula da Silva exigiam o seu impeachment; e alguns mais exaltados vaticinavam que era o momento de "acabar com a raça dessa gente" - entenda-se, acabar com o Partido dos Trabalhadores e com a esquerda e proto-esquerda no país.

Mas ventos econômicos favoráveis começavam soprar ao encontro de países emergentes. O Brasil iniciava sua condição definitiva de "B" dos BRICs e sua economia passava a decolar. Não existiam, porquanto, elementos materiais consistentes para se fazer avançar a ofensiva contra o presidente Lula da Silva e seus correligionários.

Desde 2012-2013 que tudo mudou. As circunstâncias e a correlação de forças começaram a favorecer a revanche dos antagonistas. O impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 foi apenas o início e a condenação do presidente Lula da Silva está longe de ser o fim. Eles querem "acabar com a raça dessa gente" e estão, em parte, conseguindo. Paradoxalmente no momento em que até os frequentadores de Davos estão sensíveis a tendências progressistas que o presidente Lula da Silva mais e melhor encarnou.

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