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Política para Indignados

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Política para Indignados

Aprofundamento e reversão da crise

J. Carlos de Assis, economista, RJ

13/07/2018

Senhor Presidente do Congresso, Senador Eunício de Oliveira,

O senhor me conhece como assessor do Senador Requião. Aqui, porém, sou porta-voz de economistas politicamente independentes que estão seriamente preocupados com as repercussões no Brasil da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, a norte-americana e a chinesa, em si extremamente perturbadoras, mas que podem piorar ainda mais, resvalando para uma terceira Guerra Mundial - desta vez atômica.

A primeira Grande Guerra começou por causa de um conflito de honra entre Reis europeus, camuflada de guerra colonial; a segunda por uma guerra econômica a partir de reparações financeiras impostas insensatamente à Alemanha por conta da primeira; a terceira pode ser o produto da loucura e da ambição.

Na carta que enviamos em anexo pedimos sua atenção para sugestões que apresentamos a fim de pelo menos amenizar a crise para o Brasil, se não pudermos superá-la no curto prazo. Estamos aguardando algum tipo de ação defensiva pelo Senado Federal, cuja liderança no

Congresso será essencial nesse processo.

Cordialmente, J. Carlos de Assis

P.S. Por favor, acuse recebimento.

Carta ao Congresso Nacional

Senhoras e Senhores Senadores, Deputadas e Deputados,

Uma guerra comercial foi declarada pelos Estados Unidos contra a China. Seus reflexos já se fizeram sentir inicialmente na bolsa de Xangai, estendendo-se à bolsa de commodities em Chicago e, nos mercados globalizados, em Wall Street e nas principais bolsas do resto do mundo, inclusive a brasileira, culminando com a queda de 7% no preço do petróleo, na quarta feira, avaliada por especialistas como um banho de sangue (ver anexo). A crise global já não é mais uma hipótese, mas um fato em curso. Na quinta-feira as bolsas se aquietaram um pouco, mas isso é característico de grandes crises.

Paira sobre o mundo a sombra do crash de Wall Street em 1929 e, seu sucedâneo, a Grande Depressão dos anos 30 nos Estados Unidos e na Alemanha, onde as taxas de desemprego chegaram a mais de um quarto da população. Foram milhares de bancos, empresas e fazendas que quebravam em série. Aqui no Brasil fomos salvos pelo Governo Vargas, com a política do café. Paira sobre o mundo a ameaça também de uma guerra nuclear, algo impensável num contexto em que o controle do maior arsenal atômico do mundo está nas mãos de um louco e de sua equipe lunática de assessores, a começar pelo Secretário de Defesa que quer impor à Coreia do Norte um "acordo" nuclear unilateral, se é que isso existe.

No campo econômico, podemos escapar dessa desgraça que ameaça virtualmente o mundo todo. Sabemos o caminho para isso. Foi descoberto pelo presidente Roosevelt nos Estados Unidos, em 1933, e pelo mago das finanças alemão, Hjalmar Schacht, que lançaram, respectivamente, o NewDeal e o Novo Plano alemão, revertendo quase instantaneamente a Grande Depressão – porém à custa, no último caso, de um nacionalismo xenófobo promovido sob as bênçãos de Hitler.

Sabemos o que fazer, e fazer imediatamente. Felizmente o caminho foi descoberto por esses nossos antepassados para enfrentar problemas semelhantes. O que nos falta é liderança política para isso.

A liderança que está aí traiu o povo e traiu a Nação. Para nossa infelicidade, ela tomou o poder republicano por um golpe e implantou no país, de uma forma que pretende definitiva, a doutrina neoliberal voltada para a defesa exclusiva do sistema bancário e do grande capital.

No Brasil, esses vendilhões da Pátria deram à doutrina neoliberal um nome próprio, a Ponte para o Futuro, que tentaram impor ao país através do PMDB e foram rejeitados. Tendo assumido o Governo, enfiaram goela abaixo da Nação esse testemunho de iniquidades, ignorando o desemprego e a depressão econômica em três anos seguidos, chegando agora ao quarto ano.

Um Governo de um país com mais de 13 milhões de desempregados que não moveu um milímetro, desde o ajuste infame de Joaquim Levy, para enfrentar o desemprego não merece a confiança do povo e do conjunto da Nação. É um Governo iníquo. Um Governo indiferente. Um Governo que justifica a desconfiança do povo de que só se move pelos próprios interesses, não os interesses do Brasil.

Este Governo tem que entregar o poder. Preferivelmente, por vontade própria, a fim de dar espaço a uma nova liderança que tenha condições plenas de enfrentar a crise política e a crise econômica mundial que se aproxima. Só um programa keynesiano, antítese do neoliberalismo, nos possibilitará evitar os efeitos mais pesados da crise, em tempo de aliviar as dores de um povo sofrido que já pagou sua quota de sofrimento radicalizado pelo atual Governo e pelo seu arauto neoliberal, Joaquim Levy, convocado ao poder por uma Presidenta confusa.

Se esse Governo não sair por vontade própria, portanto, espontaneamente, teremos que abrir uma negociação com esse fim, ao amparo de um Grande Pacto Social e Nacional. É o momento de apelarmos para os valores históricos de igualdade perante a lei e de fraternidade que o povo brasileiro sempre sustentou antes da avalanche neoliberal, iniciada ainda no Governo Collor, acentuada com o Governo Fernando Henrique e aprofundada ao limite máximo no Governo Temer.

Só o Pacto, Social e Nacional, nos fará evitar o desastre certo que, se ficarmos passivos diante da crise que nos acometerá. Por isso fazemos um apelo dramático à Nação, e ao nosso povo, para construirmos juntos um caminho de fraternidade, sem ressentimentos pessoais mas atacando no limite de nossas forças as forças coercitivas do grande capital e do sistema financeiro especulativo, ou o Mamon justificadamente condenado pelo Papa Francisco. Com isso, e com uma articulação diplomática nova, é possível que o Brasil possa dar contribuição também no campo da preservação da paz mundial.

Não é fácil o caminho do Pacto. No mundo político, pela natureza mesma do processo de busca pelo poder, os atritos se acumulam. Entretanto, estamos todos no mesmo barco. Se não remarmos juntos soçobraremos todos. Nesse contexto, o interesse nacional deve prevalecer efetivamente sobre o interesse próprio. E temos de levar em conta que pactos não se fazem entre amigos, mas sim entre adversários. Os amigos já vivem numa situação natural de pacto.

Entretanto, sendo a preliminar do grande Pacto a saída do poder do atual Governo, o que em geral intimida o povo e os políticos, de forma consciente e muitas vezes responsável, é a pergunta sobre o que ou quem virá depois. A resposta é óbvia: prevalecerá a Constituição, eventualmente emendada em regime de urgência, que determinaria as regras para a eleição indireta de um Presidente e um Vice-Presidente da República no prazo de 30 dias depois da vacância. É claro que é preciso adaptar essas regras ao quadro dramático em que estamos: reduzir o prazo entre eleição indireta pelo Congresso e encurtamento do prazo entre a eleição e a posse. Não obstante, o calendário eleitoral já em curso deve ser mantido, possibilitando ao presidente interino por concorrer.

Deverá ser exigido do candidato indireto à Presidência, preferivelmente um tecnocrata conhecedor profundo de Economia Política, um programa de emergência para enfrentar e reverter a crise. Isso é a parte mais fácil. Sabemos o que fazer e podemos oferecer um programa completo ao candidato que reunir as demais condições morais e de conhecimento específico da economia política para assumir o poder executivo da República. Confio em Deus, sinceramente, que isso pode acontecer. O povo, a Nação, o Brasil merecem um caminho seguro depois da condição de peregrinos no deserto e no caos.

Ao Senado da República, e consequentemente à Câmara dos Deputados, não se pede o impossível. Pede-se apenas que saiam da zona de conforto, adiem por apenas alguns dias a luta pela reeleição e não se deixem perder, diante do povo, pela omissão. A tragédia social que pode resultar da guerra entre a maior potência econômica do mundo e a segunda é fácil de prever. Entretanto, sustentamos com absoluta convicção que temos gente capaz de enfrentar e reverter as consequências dessa crise em tempo recorde.

José Carlos de Assis, Economista Político

P.S. Se V. Exa. achar conveniente, posso oferecer, junto com um grupo de economistas e sociólogos, sugestões concretas para o enfrentamento da crise econômica, caminho para a superação da crise geopolítica. Mas desde já asseguro insisto que, para não ser acusado mais tarde de insensatez e indiferença diante da maior crise por que passou a humanidade, o Congresso assuma sua responsabilidade, suspenda o recesso e inicie imediatamente as deliberações necessárias. Se não confia no meu feeling, confie nos dados concretos, geopolíticos e econômicos, que já se avolumam na internet.

Anexo

Eis aí, Senador, os sinais do crash. Este comentário, com tradução minha, foi retirado de uma das mais prestigiosas newletters do mundo na noite de quarta feira. Nesta quinta, os mercados continuaram instáveis.

Banho de sangue: petróleo cai em meio ao maior crash de commodities desde julho de 2015 (quarta-feira)
Zero Hedge

Apesar de uma massiva retirada dos estoques, enorme estoque, que inicialmente elevou sua disponibilidade, parece que o peso da ansiedade sobre a demanda global - estimulado por uma escalada da guerra comercial - aumentou ainda mais com a elevação do dólar, provocando uma avalanche de vendas no complexo energético.

"Não há dúvida de que essa incerteza continua apesar não apenas nos mercados de petróleo bruto, mas na verdade em todos os mercados", disse Brian Kessens, que ajuda a gerenciar US$ 16 bilhões em ativos de energia na Tortoise.

O petróleo se estabilizou numa queda de US$ 5,46, ou mais de 7% no dia, o que representa a maior queda de petróleo desde fevereiro de 2016.

"Há uma preocupação crescente entre os participantes do mercado de que a guerra comercial irá afetar a economia real e colocar um freio no crescimento econômico global", disseram analistas do Commerzbank em uma nota diária. "Nós vemos a queda dos preços como excessiva, uma vez que os mercados acionários asiáticos, por exemplo, sofreram perdas menores em resposta ao mais recente desenvolvimento da guerra comercial. Esperamos ver um contra-ataque pronunciado se a situação se acalmar novamente."

Mas não é apenas petróleo: todo o espaço dos metais está sendo atacado por temores de uma desaceleração da economia chinesa e global, com os preços do cobre despencando até 4% em Londres, a maior queda desde dezembro de 2017; os futuros perderam quase 17% desde o pico no início de junho.

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