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Política para Indignados

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As urnas eleitorais entre duas sombras

J. Carlos de Assis, economista, RJ

06/10/2018

As candidaturas de Haddad e de Bolsonaro parecem ter surgido no país como sombras oriundas das ondas impessoais da política. Os candidatos não são pessoas, são conceitos. Bolsonaro apareceu como uma espécie de aviso longínquo de que alguma coisa de natureza extremamente radical poderia acontecer no país, embora não no tempo imediato. Haddad era uma sombra viva de Lula, lançado na disputa eleitoral não para ganhar, mas para garantir espaço de regeneração do combalido Partido dos Trabalhadores.

Por surpreendente que tenha sido isso, as duas sombras cresceram e se tornaram a imagem concreta de si mesmas. Ambas se desenvolveram pela ameaça explícita da outra. Bolsonaro se revelou o risco maior por causa de seus excessos retóricos. A parte da sociedade que acumulara, por razões diferentes, grande ressentimento contra o PT passou a aceitar com mais naturalidade a hipótese do lulismo em face dos exageros de seu principal opositor. Essa talvez seja a principal razão para a provável derrota do capitão no segundo turno.

Entretanto, o jogo ainda está sendo jogado. Tendo em vista os precedentes históricos brasileiros, ninguém garante como terminará até o último minuto. Quem poderia prever, por exemplo, a facada desfechada contra Bolsonaro? Acaso isso não mudou o rumo das eleições? Estou convencido de que a situação do paciente é pior do que dizem os médicos. A evidência de que estão escondendo algo é a recomendação médica para sua ausência no último debate. Disseram que era por covardia. Tolice. Bolsonaro é tão arrogante que não tem medo de nada.

Um padecimento prolongado de Bolsonaro poderá ter forte efeito eleitoral. As pessoas poderão padecer de sua condição de saúde. O adversário principal, Haddad, terá de moderar seus ataques para não parecer que está tirando vantagem da situação dele. Enfim, vários poderão ser os motivos para a afirmação eleitoral de Bolsonaro, os quais nada tem a ver diretamente com a disputa eleitoral em si, por méritos e deméritos dos candidatos, mas que poderão ter influência decisiva nos resultados das urnas.

Se me fosse dado dar um conselho a Haddad neste momento, eu sugeriria que manejasse seu discurso neste segundo turno sobretudo no rumo de uma grande humildade de proposições. Nada de revanchismo. Nada de arrogância. Nada de grandes desafios. O enfermo deve ser respeitado na sua condição física, não moral. A tradição do povo brasileiro, ao contrário do que acontece com sua elite, é de condescendência, piedade e comiseração. Como já escrevi dias atrás, a sociedade brasileira definitivamente não gosta de chutar gato morto.

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