Frente pela Soberania

Análises Políticas, Econômicas e Sociais

Aa aA

Política para Indignados

Foto

Política para Indignados

Assassinatos políticos

Daniel Afonso da Silva, historiador, SP

07/02/2018

França, fins de janeiro de 2017. A corrida presidencial se acelerava. Agremiações políticas se redefiniam. Candidatos se consolidavam. E François Fillon figurava favorito na batalha pelo Élysée.

O presidente François Hollande (2012-2017) declinava de disputar novamente a função. O Partido Socialista se via em progressiva fragmentação. Jean-Luc Mélenchon se debatia com seu "France Insoumise" – reunião de diversas tendências de esquerda – para impor seu projeto. Emmanuel Macron seguia em marcha deveras lenta em seu "En Manche" em vias de definição. E Marine Le Pen do "Front National" parecia ascender irresistivelmente ao encontro da presidência; mas em seu caminho havia um empecilho chamado François Fillon.

François Fillon seguia confiante. Acreditava que, na pior das hipóteses, disputaria o segundo turno com Marine Le Pen e o cenário de 2002 – onde Jacques Chirac fora ao segundo turno das presidenciais com Jean-Marie Le Pen e o conjunto das tendências políticas francesas lhe deram apoio para impedir a chegada do "Front National" ao poder nacional – se repetiria.

Mas no dia 24 de janeiro de 2017, a sua fortuna começou a mudar.

Nessa data, o Canard enchaîné noticiava possíveis irregularidades em probidade pública. Segundo o jornal satírico, o primeiro-ministro da presidência Nicolas Sarkozy (2007-2012) empregara sua esposa, Penelope Fillon, como funcionária-fantasma na Assembleia Nacional, que haveria recebido aproximados 600 mil euros sem contrapartida laboral no parlamento francês.

Essa revelação foi percebida com tranquilidade no interior dos comitês de campanha. François Fillon confiava em sua integridade pública e acreditava que nenhum contratempo jurídico o retiraria o galardão eleitoral. Mas os ventos não tardaram virar. Em poucas semanas, o dossiê ganhou em força e dimensão, a ponto de ser nominado "Penelope Gate".

Cambaleante, mas ainda no páreo, o candidato Fillon seguiu sua marcha ao longo do mês de fevereiro. Em inícios de março sua recuperação parecia consistente. Os grandes tenores de seu partido "Les Républicains", notadamente Nicolas Sarkozy e Alain Juppé, davam-lhe todo apoio e impulsão. A opinião pública fixava progressivamente menos atenção ao "Penelope Gate". O "efeito Le Pen" assustava parcelas crescentes da população. E a classe política ia se acomodando novamente com a ideia do triunfo presidencial de François Fillon frente ao "Front National". Até que o golpe final fora desferido donde ninguém poderia imaginar: os paletós do candidato.

No dia 11 de março de 2017, o Journal du Dimanche publicaria a fatura que indicava que dois dos paletós utilizados por François Fillon ao longo da campanha haviam custado aproximadamente 13 mil euros em uma aifaiataria de luxo em Paris. Em tempos de crise e austeridade, essa informação figurou como insuportável aos eleitores. Era o fim do candidato. François Fillon estava morto politicamente.

Não restam dúvidas que imprensa e judiciário concorreram decisivamente para esse assassinato político que galvanizaria a passarela política para ascensão de Emmanuel Macron ao Élysée. Assassinatos políticos desse tipo vêm se multiplicando mundo afora. No caso da França, ao menos havia um Macron.

Download deste Artigo

Endereço desta página:
http://www.frentepelasoberania.com.br/politica/assassinatos-politicos/

Compartilhar
Leia também:
×