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Política para Indignados

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Política para Indignados

Carta a Manuel Castells

J. Carlos de Assis, economista, RJ

09/10/2018

Acabo de ler sua carta aos intelectuais do mundo a propósito da possível eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. É um equívoco. Sua carta deveria ser dirigida ao povo brasileiro, não aos intelectuais. Os intelectuais do mundo, a elite como se diz, têm sido cúmplices, talvez involuntários, da degradação social e do alto desemprego e subemprego que infestam a humanidade desde que os ideais sociais democratas e socialistas foram derrotados pela desgraça neoliberal em escala planetária. Bolsonaro é um beneficiário disso.

Ele não é uma ameaça aos intelectuais. Estes sempre encontrarão sua zona de conforto, mesmo que seja pela porta da emigração. Bolsonaro é uma ameaça para o povo. E não é com belas palavras e conceitos solenes que ele será derrotado. Já que não podemos contrapor uma ameaça de ditadura a outra, é essencial que Bolsonaro seja derrotado na base do voto. E para que isso aconteça o adversário de Bolsonaro, oriundo do PT, precisa prometer com credibilidade uma ação efetiva contra a pobreza que vota, e contra o desemprego.

Não terei a ingenuidade de atacar Bolsonaro. A maioria dos que o seguem estão convencidos de suas virtudes. São as virtudes do ressentimento, da raiva, da revanche. São os despossuídos do mundo aqueles aos quais, finalmente, se deu uma ponta de poder, o voto. A maioria sabe que Bolsonaro jamais promoverá iniciativas para melhorar seu nível de vida, seu acesso a escolas, seu sistema de saúde, suas casas. Entretanto, ele promete matar bandidos e acabar com a corrupção, o que satisfaz os pobres que nunca tiveram oportunidade de roubar.

Se você está tão assustado com a chegada de um nazista ao poder no Brasil, pergunte o que aconteceu nos anos 30 na Alemanha. Também lá uma democracia maravilhosa pairava sobre a humilhação de Versalhes e a miséria do desemprego. Em 1930, como aqui em 2015, tiveram um ajuste fiscal; em 1931 e 1932, como com Meirelles aqui, outro ajuste monstruoso. O desemprego se multiplicou, os deputados no Parlamento foram para mais de 200 e a desesperança se abateu sobre o povo alemão até que aparecesse Hitler, o Bolsonaro deles.

Não li uma carta sua aos intelectuais do mundo quando entidades como o Fórum Econômico Mundial promovem o desemprego em larga escala em nome da eficiência e da produtividade de homens e mulheres, tornados escravos do capital. Vejo suas críticas a Trump, mas não vi sua reação aos bombardeiros da OTAN, tendo à frente países europeus, liquidando com países socialmente avançados na região, como a Líbia, e resultando numa das maiores ondas migratórias e de crimes contra a humanidade em todos os tempos.

Nada tenho lido, de você ou de outros intelectuais do mundo – com raríssimas exceções -, sobre a escravização imposta pelo sistema bancário mundial aos sistemas produtivos, espalhando desemprego, inclusive nos próprios países capitalistas. Claro, estou como você apreensivo quanto à possível eleição de Bolsonaro. Contudo, o meio como penso evitar esse imenso risco é diferente do seu. Como somos, ambos, simples intelectuais, não temos instrumentos de persuasão de grande escala. Meu instrumento se reduz a pedir ao povo a máxima prudência, e observar com carinho a alternativa.

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