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Política para Indignados

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Política para Indignados

Indiferença e interesse nacional

Daniel Afonso da Silva, historiador, SP

06/03/2018

François Mitterrand aduzia que a maior virtude de um chefe de estado está em sua indiferença. Indiferença às opiniões e indiferença às emoções que ferem o interesse nacional.

Nessa concepção, sua presidência socialista marinou relações com comunistas, gaullistas e mesmo com a extrema direita de Jean-Marie Le Pen. E suas duas coabitações – em 1986-1988 e 1993-1995, quando o partido socialista perdera expressão eleitoral e parlamentar para o partido de Jacques Chirac – levaram ao zênite a sua prática.

Quase quarenta anos após a sua chegada ao poder na França em 1981, o seu imperativo da indiferença virou – para o bem e para o mal – regra explícita em toda parte.

Como teorizado por Dominique Moïsi, das emoções – medo, humilhação e esperança – emergidas no após os atentados de 11 de setembro de 2001 no meio internacional, o medo venceu. Venceu e frustrou a esperança e exasperou a humilhação.

A desesperança promoveu Donald J. Trump e sua era trumperiana. O excesso de humilhação conduziu a fratura e a falência de estados em todos os continentes. Nenhuma parte do mundo está imune aos extremismos, à direita e à esquerda.

O viver democrático virou perigoso.

O presidente dos Estados Unidos foi eleito democraticamente. Ninguém contesta. Nem deve fazê-lo. Pouco a pouco ele foi superando sua natureza de bonifrate. Após um ano de presidência, ele passou a encarnar a função quase impecavelmente. Até seus críticos mercuriais começam a se acomodar nesse fato. Todos os seus gestos e ações vão de par com suas promessas de campanha. Seu eleitorado segue contemplado e satisfeito. O mesmo se replica na Rússia de Putin, na Síria de Assad, na China de Xi, na França de Macron.

“Um país não tem amigos, tem interesses”. Atribuída ao general De Gaulle, essa frase que jamais foi tão verdadeira. E o maior interesse de qualquer país é a manutenção da integridade de seu interesse nacional.

Nos dias que correm, praticar positivamente esse interesse coaduna com a indiferença.

Trump, Putin, Assad, Xi, Macron estão pouco ou nada preocupados com a popularidade advinda dos observadores nacionais e internacionais. O imperativo do interesse nacional é decisivo para todos eles. Eles todos executam – e rápido – projetos em todos os sentidos e em todos os matizes.

Macron e Xi estão primando pela recolocação de seus países em um bom lugar ao sol da cena internacional. Assad resiste ao mundo inteiro, interno e externo, sem pudor nem piedade para manter a integridade física e moral de seu país. Putin reabilita, diariamente, a Rússia eterna anterior aos socialismos e às crises do czarismo.

Todos, como Trump, querem seus países “great again”. “Great again” face às globalizações que mais e mais suscitam medos traduzidos em declinismos e derrotismos.

Mas qual é o limite da indiferença?

O presidente brasileiro é indiferente a tudo. Poucos mandatários brasileiros praticaram tão habilmente a indiferença. Sua popularidade inexiste. Apenas resta saber se sua indiferença vai ao encontro de nosso interesse nacional.

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