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Política para Indignados

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Política para Indignados

O debate de economia política entre Renan e Renan Filho

J. Carlos de Assis, economista, RJ

30/09/2018

O senador Renan Calheiros, como qualquer político, tem lá seus defeitos. Entretanto, o que criticam nele são suas qualidades. Ele esteve ao lado dos que derrubaram Dilma Rousseff do poder na crença de que o governo dela estava arruinando o país. Mas pulou fora do barco governamental quando ficou evidente o erro cometido e passou do campo da situação para a oposição. Pagou caro por isso. Inventaram mais de dez processos contra ele. Com isso, sofreu do Judiciário uma perseguição implacável.

Eu estava no Congresso quando Renan subiu à tribuna para se defender dos vários inquéritos e processos. Foi uma aula de coragem. Desafiou os promotores a apresentar denúncias consistentes. Desafiou igualmente o Supremo a julgá-lo, a fim de que fosse tomada uma decisão definitiva, suspendendo-se as ameaças recorrentes contra ele. Foi efetivamente julgado em alguns processos e, como antecipou da tribuna, acabou inocentado. Mas é claro que o denuncismo do Ministério Público o incomodou barbaramente.

Renan tem um filho como governador de Alagoas. Participamos de uma discussão a três sobre a política econômica atual e, sobretudo, sobre a questão da dívida dos Estados junto à União. Eu achava que o tema fluiria normalmente em favor de minha tese (e do senador Roberto Requião) de que a dívida dos Estados é nula desde a origem. Qual foi a minha surpresa quando Renan Filho, discordando do pai, se colocou numa posição francamente neoliberal, justificando indiretamente a posição da União a respeito.

Em síntese, como tenho escrito, o problema se coloca da seguinte maneira: o FMI obrigou o Governo Fernando Henrique a consolidar nos bancos privados a dívida mobiliária dos Estados em 1997. Ato contínuo, pagou essa dívida, sem desconto, com títulos federais. Até aí tudo bem. Acontece que, na sequência, o Governo transferiu a dívida aos Estados. Eu sustento que não poderia fazer isso porque o que foi pago pela União foi simultaneamente pago pelos Estados, pois os cidadãos dos Estados são os mesmos da União.

O que leva Renan Filho, o mais eficiente governador do Nordeste, a não aceitar o meu argumento sobre a dívida dos Estados? É uma praga chamada neoliberalismo. Esse governador atuante e de notável espírito público se formou em Economia pela Universidade de Brasília, e a Universidade de Brasília, um centro de pensamento econômico avançado no tempo de meu dileto amigo Dércio Garcia Munhoz, transformou-se numa escola retrógrada, dominada por acadêmicos neoclássicos e neoliberais.

Renan pai, que não é economista, tem fundamentos econômicos progressistas muito maiores que os do filho. Divergiu da turma que domina o governo Temer com todos os riscos que isso representa, inclusive para o filho. Está fazendo uma campanha primorosa do ponto de vista ideológico. Rompeu com todas as amarras neoliberais e trouxe o debate econômico para um nível que se pode chamar de keynesiano, fundado na ideia de que tem que ser retomado o investimento público, inclusive deficitário, para a retomada da economia.

Mesmo com minhas discordâncias de Renan Filho, admirei o ardor da discussão familiar sobre temas de alto interesse público. Só tenho visto isso, no meu círculo mais próximo, entre Requião pai, o senador, e Requião filho, o deputado. Imaginem agora o diálogo entre Danielle Cunha e o pai, Eduardo Cunha; entre Cabral e o filho Marco Antônio Cabral; entre Picciani pai e Leonardo Picciani; entre Marcelo Crivella e Marcelinho. Será que, nessas supostas discussões entre pais e filhos, há lugar para o interesse público?

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