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Política para Indignados

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Política para Indignados

O inconformismo dos irresponsáveis

Daniel Afonso da Silva, historiador, SP

14/02/2018

A desunião na União Europeia causou furor. A vitória do "leave" inglês sugeriu efeito cascata em toda parte. A intensificação do contencioso catalão foi sua decorrência mais eloquente. Um novo referendo, hoje, faria ganhar o "remain". Mas fazê-lo seria zombar demais da sobriedade e da autoridade de instituições britânicas e europeias. A saída mais consequente acabou sendo forjar acomodações e se preparar, honradamente, para as consequências.

A eleição do magnata "Aprendiz" nos Estados Unidos, em outra medida, acelerou a implosão do sistema político-partidário norte-americano. Aderente da agremiação republicana, Donald J. Trump ingressou na disputa interna do partido, menosprezou seus oponentes, desprezou toda sorte de decoro eleitoral e foi disputar, vencer e humilhar a escolhida dos democratas, Hillary Clinton. O primeiro ano de sua era truperiana – ou era de outsiders – experimentou a fúria de adversários e a multiplicação de inimigos. Poucos homens públicos foram mais hostilizados que ele e seu bando na história política contemporânea mundial.

Mas pouco a pouco, ao longo de 2017, os norte-americanos e os demais cidadãos do planeta começaram a se acomodar. Parecem ter concluído que nem o efeito Donald J. Trump nem a ignomínia do "Brexit" foram – são – totalmente improcedentes, mesmo que indesejáveis.

O impeachment da presidente Dilma Rousseff e a condenação do presidente Lula da Silva geraram desacorçoo. O presidente mais popular da história recente do país produziu sua sucessora, Dilma Rousseff, em 2010. Mas ela teve toda sorte de dificuldades para encarnar o poder. A traição partidária começou em seus primeiros dias de governo. Seu próprio partido, o PT, a abandonou. Seus correligionários, históricos e momentâneos, deram-lhe as costas. Seus parceiros, ditos progressistas, acovardaram-se. Sua virtu – sua honestidade – sucumbiu diante de sua ausência de fortuna – a erupção de conjunturas econômicas e políticas desfavoráveis. Sua deposição concorreu para a erosão das esquerdas e proto-esquerdas brasileiras. Como decorrência, veio a avalanche política contra todos. Nem o presidente Lula da Silva saiu ileso. Após a condenação, sua prisão virou iminente.

Dever-se-á, aqui, também se render ao conformismo e à acomodação?

Na França, fez-se o contrário. Disse-se não ao conformismo e não à acomodação. Como resultado, surgiu Emmanuel Macron. Mas, ao mesmo tempo, teve início o esboroamento final do sistema político-partidário francês cujo custo ainda segue incalculável.

No Brasil, os sinais seguem menos claros e mais confusos. O inconformismo brasileiro das noites de junho de 2013 contribuiu para a derrocada da presidência Dilma Rousseff. A irresponsabilidade de gestores políticos, aliados e adversários, permitiu um impeachment tropical vexatório e inadmissível. Golpe ou não, foi uma vergonha. O mesmo inconformismo e a mesma irresponsabilidade animam o vale-tudo jurídico inconsequente, desde investidas contra o sucessor da presidente até a ignomínia contra o antecessor dela.

O arrependimento, entre nós, pode ser velado. Mas ele existe. Ou deveria existir. Todos os brasileiros perdemos. Só covardes – e canalhas – não percebem. E só eles, agora, tendem a se acomodar e se conformar com seu inconformismo irresponsável na ilusão da chegada de um Macron à brasileira.

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