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Referendo Revogatório

Privatização da Eletrobras

Paulo Metri, engenheiro, RJ

25/01/2018

Segundo William Bonner, o telespectador médio brasileiro é "um Homer Simpson" e a Globo, empresa que o emprega, não se preocupa, em momento algum, em informar todos os ângulos de um fato, assim como desenvolver o pensamento crítico dos expectadores. As matérias carecem de análises a partir de diferentes visões, restringindo-se às posições de interesse do capital, que prefere o telespectador brasileiro bem inocente e alienado, passível de ser facilmente enganado. Assim, eles formam Homer Simpsons.

Mas não é só a Globo que age desta forma. Trata-se de um comportamento de toda a mídia tradicional, que engloba os demais canais de TV, tanto os abertos, quanto os a cabo ou por sinal de satélite, todos grandes jornais, quase todas as revistas semanais e as rádios comerciais. Só a mídia alternativa defende o povo. No governo Temer, como todas as propostas de reformas beneficiam o capital em detrimento da sociedade, o controle da mídia está sendo muito útil para estes inimigos do povo.

O prejuízo causado pela mídia do capital à sociedade brasileira, como, por exemplo, através da reforma trabalhista, que fez regredir a proteção ao trabalhador quase àquela existente na época da revolução industrial, tem como grande responsável esta mídia. Desta forma, a privatização da Eletrobras é a próxima investida do capital. Só um sociopata, que não sente remorsos por ações antissociais, pode atingir o grau de crueldade existente no esquartejamento da Petrobras e nesta privatização. Tem horas em que a inocência do povo chega a ser um benefício para ele, pois o que adianta entender a desumanidade com que lhe tratam e estar impossibilitado de reagir?

A privatização da Eletrobras chega às raias do absurdo, uma vez que, ao privatizá-la, privatiza-se também a água, uma necessidade humana. Os ideólogos do neoliberalismo vivem falando em “competição perfeita”, que é difícil de ser encontrada no mundo real. Da mesma forma, não existe agência reguladora que tenha o poder de ditar normas para poderosas proprietárias privadas de aproveitamentos hidráulicos. É impossível que uma agência reguladora, ainda mais no governo Temer, mande uma geradora privada reter água na barragem, sem gerar eletricidade, porque ela será necessária para o abastecimento humano, por exemplo. Os ocupantes de cargos de direção em agências reguladoras, no Brasil, têm sido escolhidos pelas empresas privadas a serem reguladas pelo órgão.

Geração de eletricidade é um dos usos da água de uma bacia hidrográfica e, inclusive, não é dos mais nobres. Alguns usos da água, ordenados pela nobreza, sob a minha ótica pessoal, são o abastecimento humano e animal, a irrigação, a piscicultura, a geração elétrica, o uso do leito do rio para navegação e o turismo. Se este argumento não bastar para a Eletrobras não ser privatizada, a eletricidade é um insumo básico em qualquer economia, além de ser um consumo residencial indispensável. Assim, as empresas encarregadas da geração, transmissão e distribuição de eletricidade não podem ficar nas mãos de quem visa unicamente auferir lucros. A Eletrobras prioriza o bom atendimento ao invés do lucro, sem abrir mão de uma parcela comedida deste.

Ao invés de se privatizar a Eletrobras, muito mais sensato seria trazer energia barata e garantida para o consumidor, principalmente o residencial. Para tanto, deve-se buscar acabar com as irracionalidades impostas ao setor elétrico. Hoje, pelas regras existentes, uma empresa geradora poderá não ser remunerada na proporção da energia que ela gerou. Consumidores industriais poderão ser levados a parar suas atividades para usufruírem lucro com a venda da eletricidade que lhes estava destinada. Assim, o setor elétrico transformou-se em um grande cassino com jogadores de alto poder de apostas. O interesse social não é considerado.

Se, apesar destes argumentos, o leitor ainda não está convencido da necessidade da permanência da Eletrobras como empresa do Estado, pode-se acrescentar que ela construiu uma invejável matriz do setor elétrico com os atuais 84% de energia renovável, o que repercute positivamente na matriz energética nacional. Muito poucos países do mundo têm uma matriz elétrica com tão baixo lançamento de gases do efeito estufa, levando em conta o porte da geração, como o Brasil. Isto ocorre graças à opção do Estado brasileiro, através da Eletrobras, desde os anos 50 do século passado, em investir nos aproveitamentos hidráulicos mais econômicos, que resultou inclusive em baixos custos de geração.

Com a indesejável privatização, os novos investidores irão escolher térmicas a combustível fóssil, geradores eólicos e solares, pois eles optam por investimentos de curtos prazos de maturação, cuja entrada do lucro começa em tempo mais cedo. Obviamente, pouco se importam com o impacto ambiental das térmicas, nem tampouco com o fato das gerações eólica e solar serem intermitentes, pois quando não há sol nem vento, estas gerações estarão comprometidas. Inclusive, sobre este ponto, há um erro comum de planejamento porque comparam o custo do kWh gerado de fontes que fornecem energia firme com os custos das intermitentes eólicas e solares.

Neste ponto da discussão, os lobistas sempre alegam que a hidroeletricidade é sazonal, o que é verdade, pois depende das chuvas. Mas com a construção de reservatórios de armazenamento plurianual, diminui muito a influência da sazonalidade da fonte. Novamente, os lobistas voltam a argumentar, pegando carona com os ambientalistas (estes com propósitos honestos), contra os reservatórios plurianuais. Para não alongar este texto em uma discussão paralela, só cito que o conceito de desapropriação de um bem de uma coletividade reduzida em troca da obtenção de melhorias para um conjunto maior da sociedade é usado, há muito tempo, em várias situações, como para construir obras viárias. É claro que isto irá requerer muito diálogo e compensações para quem iria sair lesado. Notar que só o Estado tem interesse em investir em hidroelétricas com reservatórios plurianuais, uma das melhores opções para a sociedade.

Para finalizar, este setor é o paraíso para os lobistas do capital auferirem lucros mais fáceis que os usuais, graças a discursos técnicos incompreensíveis para o leigo. Buscam aparentar “competência”, através do linguajar, na discussão da atratividade de fontes para geração elétrica. Aliás, os próprios técnicos do setor, sem compromissos com as forças políticas, econômicas e sociais, também não explicam, com um linguajar que o leigo entenda, os graves problemas do setor. Todos falam o eletriquês.

Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/

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